Dois Mundos Demográficos Distintos (1950-2000)

Em traços gerais verifica-se que, no mundo desenvolvido, o controle da natalidade e a consequente diminuição da taxa de natalidade são uma regra. Pelo contrário, no terceiro mundo, verifica-se um decréscimo acentuado da taxa de mortalidade desde finais da Segunda Guerra Mundial, graças à ciência e técnicas ocidentais, aí introduzidas. Enquanto isso, a taxa de fecundidade permanecia idêntica, com taxas de crescimento anual na ordem dos 2 e 3%. Apesar de alguns reajustamentos ocorridos desde a década de 70, a taxa de crescimento, nos países terceiro mundistas mantém-se entre 1,2 e 1,8%.
Nos últimos cinquenta anos assistiu-se a uma alteração radical dos comportamentos demográficos decisiva na diferenciação entre o mundo desenvolvido e nos países em vias de desenvolvimento. Essa diferenciação é particularmente notória no que diz respeito à taxa de natalidade, verificando-se aquilo que os estudiosos da população chamam a "desnatalização da Europa". Entre os anos 50 e o final do século XX, a taxa de natalidade decresceu de forma drástica e dramática. Atualmente, no velho continente a substituição de gerações deixou de ser possível e a população envelhece progressivamente, com a exceção da Irlanda.
A substituição das gerações exige uma taxa de natalidade de 2,1 nascimentos por cada 1000 habitantes em cada ano. Ora, ela é inferior na maior parte dos países (1,4 na União Europeia em 1997). Entre as causas avançadas para a explicação deste fenómeno, aponta-se o trabalho das mulheres, a diminuição muito acentuada em diversos casos da fecundidade, a quebra do número de casamentos, bem como o aumento do número de divórcios.
Se, até ao século XVIII a Europa era o continente proporcionalmente mais povoado e o grande alimentador da população dos restantes, através da emigração, agora os terrenos estão totalmente invertidos no advento do século XXI e as consequências desta situação são ainda imprevisíveis, não deixando, contudo de ser debatidas e estudadas pelos cientistas. Em acentuada perda demográfica, enfrentando o envelhecimento dos seus habitantes, a Europa é ainda confrontada com outros problemas. Contrariamente ao que sucedeu ao longo da História, a Europa não vê partir os seus filhos. Hoje, recebe grandes contingentes de imigrantes provenientes do terceiro mundo e das nações onde ocorrem transformações económicas e sociais difíceis (africanos, asiáticos e latino americanos até há pouco quase em exclusivo e, desde as alterações políticas no leste europeu, ucranianos, moldavos e romenos, entre outros, em número crescente).
Esta imigração, feita quase sempre em condições precárias é acompanhada por fenómenos delicados como a difícil integração destes trabalhadores, e muitas vezes em consequência disso, fenómenos de marginalidade, delinquência e prostituição geradores de clivagens e de atitudes xenófobas e racistas de parte a parte.
As causas da desnatalização da Europa e da alteração dos comportamentos demográficos remontam a épocas mais recuadas. Desde o final do século XIX o neomalthusianismo proclamava o controle dos nascimentos como uma forma de emancipação da mulher. Após o fim da Primeira Guerra Mundial, algumas obras como Married Love (1918) de Marie Stopes, que encorajava uma maternidade desejada, e do economista Keynes, que apontava como um dos motivos do crescente desemprego a superabundância da população, chamaram a atenção para o problema do controle dos nascimentos.
Estas teorias foram perfilhadas por muitas mulheres. O mundo feminino, no período entre as duas guerras mundiais tinha adquirido, em grande parte dos países ocidentais, um novo estatuto, que lhes permitia: exercer o direito de voto e aceder a profissões de nível superior tradicionalmente reservadas aos homens o que acarretou a mutação da imagem da mulher, até então vista como a encarregada dos filhos e a dona de casa.
No início do século XX a moda simplificou as vestes femininas adaptadas às suas novas funções e ao seu novo ritmo de vida. Ao mesmo tempo que evoluía a moda evoluíam também os costumes. As mulheres mais emancipadas passavam a adotar comportamentos considerados masculinos. Passavam a fumar, a ingerir bebidas alcoólicas e a libertar-se sexualmente.
Contudo, a moda e os novos hábitos sociais eram ainda uma mera ilusão de liberdade, porque a mulher continuava a estar num plano secundário face ao homem. Por esse motivo intensificaram-se e multiplicaram-se os movimentos pela emancipação feminina nos EUA e na Europa.
O despontar da emancipação feminina e os novos costumes tiveram de imediato repercussões a nível demográfico. A guerra interrompeu o ritmo de crescimento da Europa e fez baixar o número de casamentos. Estes recuperaram em tempo de paz mas não houve um aumento significativo da natalidade, pelo contrário ela tende a baixar.
Esta desnatalidade estará relacionada com a morte na guerra de muitos homens em idade de procriar, mas sobretudo terá a ver com a expansão da contraceção. O uso de métodos contracetivos, por sua vez, deve-se à descristianização das sociedades, à perda de influência das igrejas, ao alargamento do período escolar e à incerteza do futuro, encarado com algum medo.
A diminuição da natalidade conduziu inevitavelmente ao envelhecimento da população europeia, onde se insere o caso português, apesar do país estar muito atrasado em relação aos estados intervenientes na guerra.
Nos Estados autoritários foram lançadas com sucesso campanhas natalistas. Na Alemanha, por exemplo a taxa de natalidade passou de 14, 7 em 1933 para 20,4 em 1939. Muitos outros países também adotaram políticas natalistas que tiveram resultados positivos na década de 40.
No período de pós-guerra mudam os comportamentos demográficos. Ao contrário do que acontecera anteriormente, o casamento é mais precoce, mas a taxa de natalidade diminui. Em termos gerais, as mulheres que tiveram filhos enquanto jovens evitam propositadamente tê-los mais tarde, recorrendo para isso aos métodos anticoncecionais. Os meios rurais e as classes com mais posses económicas permanecem mais fecundos do que os meios urbanos, onde as mulheres trabalham fora de casa e nalguns casos são celibatárias. A laicização progressiva da sociedade foi determinante na alteração de comportamentos demográficos e sexuais, porque muitos casais deixaram de se sentir constrangidos pela religião e aderiram ao planeamento familiar.
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