Dona Branca

Famosa burlista portuguesa nascida em 1911 e falecida em 1992. Pouco se sabe da história desta mulher até aos anos 80. De seu verdadeiro nome Maria Branca dos Santos, era vulgarmente apelidada de Dona Branca. Muito conhecida entre o povo em Lisboa e arredores, ficou famosa pela alcunha que lhe foi dada pela comunicação social, nomeadamente pelos jornais: a "banqueira do povo". Esta alcunha tinha origem nos negócios relacionados, ou paralelos, com a atividade bancária que D. Branca alimentava desde havia muitos anos.
Mas analisando o contexto geral da sua época, as atividades desta senhora mais não eram do que o reflexo da conjuntura económica difícil e da situação social periclitante que se viveu em Portugal após o 25 de abril de 1974 e a crise dos preços do petróleo dos anos 70. Desemprego, inflação, déficit comercial e elevada dívida pública, ameaças de bancarrota, pressões do FMI, conflitos laborais, pouca crença no futuro: assim estava Portugal no começo da década de 80. Era uma época permeável à corrupção e aos negócios "fáceis" e menos claros. 1983-1984 foi o período mais difícil, do "Bloco Central" (governo PPD - PS, chefiado por Mário Soares), com a dívida externa a níveis de Terceiro Mundo. Portugal vivia de empréstimos, cada vez mais difíceis de negociar.
O governo adotou então uma política de austeridade, agravando a situação económica de muitas famílias, devido principalmente à subida dos preços dos bens essenciais (inflação a 30%, no Natal de 1983) e dos impostos. Agudizava-se a crise sócio-económica, visível nos salários em atraso e com o apelo dramático do Bispo de Setúbal: "há fome em Setúbal!". Surgem depois os contratos a prazo, e a situação social degrada-se, com escândalos financeiros a surgirem, como o caso DOPA (organização que comercializava ilegalmente divisas). Nesta conjuntura favorável à corrupção, D. Branca, acima de tudo uma mulher perspicaz, cria uma espécie de banco particular, domiciliar, ao qual acorreram milhares de pessoas movida pela fé de poderem ganhar mais dinheiro com os seus depósitos do que na banca tradicional e legal. O seu "negócio" era simples: no seu banco paralelo, as pessoas depositavam dinheiro a juros que atingiam percentagens espetaculares (chegaram aos 120%). Numa clandestinidade encoberta pela pacatez da atmosfera bairrista de Lisboa, o banco de D. Maria Branca dos Santos prosperava dia para dia sem problemas de maior. Mas um dia houve em que a "banqueira do povo" soçobrou à tentação da fama, dando uma entrevista ao Tal & Qual. Essa publicidade do "negócio" não foi, todavia, muito bem vista pelos depositantes, que entram em pânico e se exaltam em polvorosa junto dos "escritórios" de D. Branca. A 18 de setembro de 1984, uma outra reportagem incendiaria ainda mais os ânimos: no Diário de Notícias uma cliente do "falso" banco dizia que um dia ao fazer "o seu depósito viu tanto dinheiro a monte que até se sentiu mal". Os depositantes sentiram então que estavam a ser enganados, e que o seu dinheiro poderia ter um destino que não conheciam.
Estas entrevistas geraram uma onda de choque muito grande nos depositantes e um clima de suspeição e desconfiança na sociedade portuguesa, que acabou por atingir o poder judicial. Assim, a 8 de outubro de 1984, D. Branca foi presa, iniciando-se o seu processo jurídico. Com 75 arguidos iniciais, muitos fugiram e foram julgados à revelia, tornando o processo polémico. Em 25 de julho de 1986, mediante uma caução de 2 000 000 de escudos (9976 euros, depois reduzida para 500 000 escudos, o que corresponde a 2494 euros), D. Branca era libertada, embora por pouco tempo, pois em setembro rumaria à Cadeia das Mónicas. Em 1989, era condenada pelo tribunal de S. João Novo, no Porto, a quinze meses de prisão e ao pagamento de 1 237 000 escudos (6170 euros) por emissão de cheques sem cobertura. Em fevereiro de 1990, o tribunal da Boa Hora, em Lisboa, sentenciava-a em dez anos de prisão por burla agravada e emissão de cheques sem cobertura. Dos outros 69 réus do caso "D. Branca", 24 foram absolvidos e 44 condenados a penas de dois a oito anos de prisão. Foi um dos mais mediáticos julgamentos realizados em Portugal, que se tornou mesmo internacionalmente famoso.
D. Branca acabou por falecer a 4 de abril de 1992, vítima de uma trombose, contando 81 anos. Morreu na miséria e no esquecimento, embora se tenha especulado durante muito tempo sobre uma eventual fortuna pessoal, ainda que até agora não se conheça o valor global correto resultante dos seus negócios burlescos. A verdade talvez não tenha ficado conhecida na totalidade.
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