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eleições presidenciais nos EUA (2000)
A 7 de novembro realizaram-se nos EUA eleições para a Presidência, tendo como principais candidatos à Casa Branca George W. Bush, dos Republicanos, governador do Texas, e Al Gore, vice-presidente de Bill Clinton e representante dos Democratas. Depois de uma campanha renhida e animada por "gaffes" e tiradas jocosas de parte a parte, chegava o dia de todas as decisões: 7 de novembro de 2000. Ou de todas as indecisões, pois os resultados demorariam ainda a clarificarem-se e as indefinições e ambiguidades da lei eleitoral norte-americana teimariam em persistir durante quase um mês, teriam que ser os tribunais a decidir quem era o vencedor. Até esse dia, no entanto, as eleições foram o centro das atenções da América e do mundo.
"Too close to call", foi a expressão mais usada pelos media durante dias a fio para qualificar o processo resultante das eleições de 7 de novembro. "Muito próximos para que se tirem conclusões", dir-se-ia em português. As primeiras projeções, às 0h 45 de 8 de novembro davam Bush como potencial vencedor, pois tinha já ganho cinco estados e assegurado 54 grandes eleitores, ao contrário de Gore, com um e três, respetivamente. Recorde-se que a vitória eleitoral nos EUA, desde os primórdios da nação americana, é decidida por um colégio eleitoral, onde figuram os grandes eleitores escolhidos nas eleições presidenciais. Poucos minutos depois das primeiras projeções, era dada a vitória de Gore na Flórida, um estado que se revelaria crucial neste processo eleitoral. Bush estava ainda na frente, embora os seus apoiantes estivessem, premonitoriamente, estupefactos e preocupados com os resultados da Flórida e da Pensilvânia, ambos estados cruciais no panorama eleitoral americano. Gore, cerca das 3h da madrugada, passa para a frente nas projeções, mas pouco depois a CNN avançava com a possibilidade de Gore não ter ganho na Flórida. Primeiro momento de confusão, que desencadeou uma alteração completa nas projeções de toda as cadeias televisivas americanas em relação à Flórida, lançando-se uma confusão generalizada nas sedes de campanha. Às 4h da manhã, encerravam-se as últimas mesas de voto no Alaska, numa altura em que se anunciava a vitória de Gore na Califórnia, o mais importante estado da União. Até às 7h da manhã imperou a incerteza, ainda que com uma certa tendência de vitória para os Republicanos. Cerca das 7h 18 as televisões davam como vencedor Bush, o 43.º presidente dos EUA. Por volta das 8h 3o Al Gore felicitava-o telefonicamente pela vitória. Todavia, passados alguns minutos, a CBS (cadeia televisiva) afirmava que tudo estava ainda em aberto e que ainda não se podia dizer "...and the winner is..." ("e o vencedor é..."), pondo em causa a vitória republicana. Gore telefona então a Bush dois minutos depois da notícia da CBS retirando o voto de felicitações enunciado alguns minutos antes, dizendo ao candidato republicano que aguardaria pelos resultados finais da contagem da Flórida. "As circunstâncias alteraram-se", disse o democrata. Mas ainda viria a confusão a adensar-se mais, quando duas televisões avançavam que afinal Bush não ganhara mesmo na Flórida, onde surgira um responsável pelo processo eleitoral a anunciar uma nova contagem dos votos. Al Gore, definitivamente, não se dava por vencido.
Como na campanha, a Flórida mantinha-se indecisa. Apesar de no estado de Oregon ainda não se conhecer o vencedor às primeiras horas de dia 8 de novembro, não era aí que se poderia decidir o futuro presidente da União, mas sim na Flórida, ainda "too close to call". Seis horas depois do encerramento das urnas, ainda não se conhecia o futuro presidente dos EUA.
Tudo indicava um empate técnico, com o candidato Gore, no entanto, a ter mais votos do que Bush, embora no sistema eleitoral americano tal não fosse sinal inequívoco de vitória. Era necessário esperar-se pelo colégio eleitoral ... ou pelos tribunais. Em termos eleitorais, e perante a indefinição da Flórida - sujeita depois a recontagens e a peritagens dos boletins de votos, a par de inspeções sucessivas e suspeitas de eventuais atos menos claros no processo eleitoral em certos condados - a abstenção baixara nos EUA em comparação com as presidenciais de 1996, com mais de 50% do eleitorado a acorrer à urnas. Nunca nenhum candidato democrata terá tido tantos votos como Gore, que ultrapassou em número o candidato republicano Bush, mas a distribuição dos seus votos revelou-se-lhe contrária ao sentido do voto popular. A América estava dividida: Gore ganhou nas cidades, Bush nas áreas rurais. O Sul e o Midwest mantiveram-se tendencialmente republicanos, mesmo no Tennessee, o estado de natal de Gore, que aí perdeu, ou no Arkansas, estado de origem de Bill Clinton. Nova Iorque e Califórnia votaram maioritariamente nos Democratas, enquanto que nos outros dois grandes estados, Texas - onde era governador Bush - e Flórida, os Republicanos levaram vantagem no primeiro e tudo se mantinha em suspenso no segundo (democrata em 1996). Aqui a primeira contagem oficial dera uma vantagem de 1 715 votos para Bush, mas tudo podia mudar, pois ainda faltavam os votos de 2 300 eleitores da Flórida residentes no estrangeiro.
Durante as semanas seguintes, as contagens sucederam-se, as vistorias aos boletins de voto também, as dúvidas subsistiam e a polémica teimava em manter-se, mesmo em relação aos famigerados votos dos eleitores no estrangeiro. O empate técnico era claro, com poucas centenas de eleitores a provavelmente terem de decidir o futuro de 280 milhões de habitantes da democracia "mais forte" do mundo, mas afinal com um sistema eleitoral confuso. Para além da Flórida, uma semana depois das eleições ainda subsistiam dúvidas e a eventualidade de possíveis recontagens em quatro outros estados: Oregon, Novo México (ambos então sem vencedor ainda), New Hampshire e Wisconsin (estes empatados claramente). Os 25 grandes eleitores da Flórida eram, ainda algumas semanas depois, o cerne da questão eleitoral e a chave para a sucessão de Bill Clinton na Casa Branca. 20 de janeiro de 2001 era a data de encerramento do mandato de Bill Clinton, e para os americanos, na primeira semana de dezembro, o nome do novo presidente parecia ainda longe de ser conhecido pela via eleitoral. De facto, tiveram que ser os tribunais americanos, um mês depois das eleições, a darem a vitória ao candidato com menos votos populares nas eleições de 7 de novembro de 2000, mas aquele que tinha mais grandes eleitores: George W. Bush, 54 anos, filho do antigo presidente George Bush. Acabava um dos maiores imbróglios do século XX, embora muitos americanos não tivessem ficado convencidos, alegando que o país estava nas mãos de um sistema eleitoral obsoleto, preferindo a eleição direta e o uso de boletins de voto mais claros e menos controversos.
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