Embarcações dos Descobrimentos

Situando os Descobrimentos portugueses nos séculos XV e XVI facilmente se depreenderá de que se está perante um período de formidável desenvolvimento da construção naval não só na Europa em geral como também, e com especial destaque, em Portugal em particular.
Até ao século XV, predominavam no Mediterrâneo a nave (navio redondo) e a galé grande, ambos de velas latinas (triangulares). No Norte da Europa, especialmente na Flandres, no Báltico, nas Ilhas Britânicas e Norte de França, o navio mais comum era a coca (de casco chato, como uma "concha de tábuas"), com mastro único de vela redonda. Em meados de Quatrocentos, por volta de 1420, já depois da ocupação de Ceuta pelos Portugueses (1415), aquilo que de melhor estes navios ofereciam concorreu para o aparecimento de um navio moderno equipado com três mastros e vários tipos de velas, cada vez mais adaptado à navegação à bolina, técnica que dominaria quase toda a centúria. Os castelos na proa também surgiram nesta época, quer em navios de guerra quer em navios mercantes. Maior capacidade de carga, maior potência, alojamento mais fácil da tripulação, melhor transporte da crescente quantidade de artilharia e menos madeira utilizada na construção eram algumas das inovações e melhorias deste novo tipo de embarcação, que recebeu a designação de carraca. Este tipo de navio estaria na origem técnica e construtiva da futura "nau portuguesa", que tão típica se tornaria da gesta ultramarina nacional e da própria iconografia e emblemática dessa aventura. A carraca não conheceu uma implantação rápida, mas progressiva, mesmo nas suas melhorias técnicas, para além dos seus exemplares raramente terem ultrapassado as 400 toneladas até ao século XVI. Cerca de 1450 a carraca estava implantada em toda a Europa, mesmo em Portugal, embora conhecendo a "concorrência" de outras embarcações.
De facto, o navio que marcou a primeira fase dos Descobrimentos portugueses, a fase atlântica e africana (incluído o Brasil até c. 1550), foi a caravela. Era de navegação fácil e melhor capacidade de bordejar, dado ter um aparelho latino. Mas a sua capacidade limitada de carga e a necessidade de uma grande tripulação eram os seus principais inconvenientes, que, no entanto, nunca obstaram ao seu sucesso. Este deve-se em boa parte à evolução técnica registada no século XV e graças às múltiplas viagens de exploração da costa atlântica africana, substituindo definitivamente as barcas e os barinéis naquelas atividades de navegação. Estas duas embarcações, mais pequenas e mais difíceis de manobrar, estão associadas aos primórdios dos Descobrimentos, a viagens à Madeira, Canárias, e à exploração do litoral africano até pelo menos às alturas de Arguim. Mesmo assim, a sua utilização prendeu-se mais com as atividades mercantis costeiras portuguesas, já que a caravela não demorou a impor-se em águas mais meridionais, devido, em parte, às capacidades de transporte de provisões em quantidade dessas embarcações serem reduzidas para viagens cada vez maiores nos Descobrimentos. A caravela sofreu modificações no que respeita à arte da guerra naval, o que lhe conferiu ainda maior importância na gesta ultramarina portuguesa, para além de no século XVI passar a ter dois mastros em muitos casos e também três com pano latino (um com vela redonda), chamada de "caravela redonda". No século XVI surgiu uma espécie de caravela pequena, de tonelagem reduzida: o caravelão (o sufixo é diminutivo, neste caso), que subsistiria até ao século seguinte e tinha funções de apoio às armadas. De registar que a caravela portuguesa, embarcação que evoluiu de um navio de pesca mourisco e que subsistira no Algarve até ao século XV, serviu de modelo à caravela do Norte da Europa, que só a partir de 1435 se começou a construir em maior escala. Mas o tipo de grande navio que Vasco da Gama levou na sua pequena armada à longínqua Índia, onde chegou em 1498, foi a nau, em oposição à caravela que Bartolomeu Dias usou alguns anos antes para dobrar o Cabo da Boa Esperança. Maior poder de fogo de artilharia e de defesa, melhor acomodamento de tripulação, bem como uma maior capacidade de carga e um aparelho não tão exigente como o da caravela ou da carraca, foram algumas das motivações que levaram ao desenvolvimento da nau, melhor adaptável, como se viu no século XVI, com todas as suas transformações técnicas, às viagens de longo curso - graças a uma maior autonomia - e às águas do Índico e do Pacífico. A nau é, a par da caravela, o navio por excelência dos Descobrimentos portugueses, que trazia a pimenta e os cheiros da Índia, os tesouros do Oriente e que para lá levava missionários, soldados e famílias inteiras, o maior ícone, sem dúvida, deste período da história pátria. O navio da célebre "carreira da Índia", das "naus da Índia", como o grande Camões a cantou.
Mas as viagens para a Índia, a pirataria e a guerra no mar, suscitaram o aparecimento de um outro tipo de navio também característico dos Descobrimentos portugueses: o galeão. Esta embarcação deriva da nau, mas tinha como principal fim a arte da guerra e menos o transporte de mercadorias e pessoas. A confusão que entre estes dois tipos de navios se fez no século XVI retirou algum impacto histórico ao galeão, que começou a ser construído a partir de 1520, dadas as novas exigências militares do Índico, onde os portugueses, mais do que descobrir, tinham que se impor e mesmo conquistar e dissuadir concorrências e inimigos. Só em fins do século XVI as diferenças técnicas entre a nau e o galeão seriam verdadeiramente distintivas, quando o primeiro se tornou mais largo e mais baixo, evoluindo em termos de estabilidade e navegabilidade.
Outras embarcações existiram nos Descobrimentos portugueses, mas sem a expressão náutica, económica ou militar destes navios anteriormente referidos. Falamos por exemplo do batel, que acompanha diacronicamente essas embarcações de maior porte (séculos XV-XVI), as quais servia, tendo sido usado para cargas, aguadas e até explorações. Podendo ser dotado de uma vela, o seu comprimento equivalia, normalmente, a um terço da quilha de uma nau; podia levar uma ou duas bocas de fogo. Outra embarcação usada no auxílio das armadas como navio de ligação ou em pequenos serviços era o bergantim, servido de 30 remos, o que lhe dá uma dimensão reduzida. Possuía dois mastros com vela latina. Um outro navio usado em Portugal entre os séculos XV e XVIII, mas mais como navio de guerra costeiro e raramente transoceânico, foi a galé, de bordo baixo e de três mastros de velas múltiplas, para além de remos.
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