Emigrantes

O romance narra o itinerário de Manuel da Bouça, um camponês que, na ânsia de ganhar fortuna, emigra para o Brasil, deixando a família e hipotecando as terras para pagar uma passagem para uma vida melhor. Descreve com detalhe todas as etapas da sua viagem (Oliveira de Azeméis, Lisboa, Rio, Santos, a fazenda Santa Efigénia, S. Paulo, até ao desembarque de novo em Lisboa), correspondentes aos sucessivos estádios da sua desilusão, ao constatar que no Novo Mundo encontrou ainda mais miséria do que deixara, e da sua degradação moral, que culminaria com o furto das joias de um cadáver para obter o dinheiro necessário para comprar o bilhete de regresso. O problema da emigração, não é, assim, o tema fulcral do romance, mas a tese de que o homem que nasce sem fortuna fica "a mais no mundo", transitando "de uma banda a outra dos oceanos" em busca de pão e de oiro, procura uma pátria que não existe, "pois aquela que lhes é atribuída pertence apenas a alguns eleitos"; o tema fundamental da obra parte da consciência de que "não se removeu ainda, conforme a mais clara inteligência e o mais digno sentimento, a construção social erguida pelos potentados de outrora." (prefácio à 4.a edição). Considerada uma obra precursora do Neorrealismo, Emigrantes inaugura uma nova fase do realismo social, num romance de intenção pedagógica, de alcance humanista, conjugados com uma arte de narrar que prima pela atenção descritiva, pelo vigor do diálogo, pela objetividade com que apreende traços de carácter das personagens e pela coerência com que conduz a ação.
Como referenciar: Emigrantes in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-10-26 07:34:54]. Disponível na Internet: