Epístola aos Vindouros
Constitui o segundo volume da Obra Poética de Carlos Queirós, reunindo, depois da edição, no primeiro volume, de Desaparecido.
Breve Tratado de Não-Versificação, um conjunto de poemas inéditos ou dispersamente publicados na Revista de Portugal, Ocidente, Atlântico, Diário Popular, Presença, Momento, Cadernos de Poesia, Aventura, Litoral, O Primeiro de janeiro, Diário de Lisboa, Panorama, O Instituto e Líricas Portuguesas. Composições caracterizadas por um apuro formal ironizado num poema onde demonstra sarcasticamente que "o nosso drama de portugueses,/ O nosso maior drama entre os maiores/ Dos dramas portugueses,/ É este apego hereditário à Forma:/ Ao modo de dizer, aos pontinhos nos ii,/ Às vírgulas certas, às quadras perfeitas,/ À estilística, à estética, à bombástica,/ À chave de ouro do soneto vazio/ - Que põe molezas de escravatura/ Por dentro do que pensamos/ Do que sentimos/ Do que escrevemos/ Do que fazemos/ Do que mentimos.", ao longo de todo o volume, avulta, sob vários modos, a presença de Pessoa, nomeadamente de Pessoa ortónimo.
Seja na evocação direta de Fernando Pessoa, o "amigo [que] está vivo - e morreu", seja na expressão dolorosa de um eu que se sente diferente dos outros, a quem obsessivamente se dirige para dizer a sua não-pertença; seja no tema da infância; seja num fingimento a cada passo esconjurado pelo desejo de rasgar a ironia, de despir-se de mentiras, apresentar "nu o meu eu!, ou de praticar a "arte dificílima/ De ser sempre natural", a lição de Pessoa determina de forma lúcida e consciente muitos dos textos poéticos aqui coligidos.
Por detrás das máscaras auto-irónicas, perpassa a coletânea, ao mesmo tempo, uma amargura e um pessimismo, mais do que pessoais, geracionais, que ecoam, por exemplo, no "Soneto Cru", onde lamenta a desgraça de ter nascido em Portugal e ser Poeta ("Esta é a pátria em cujo seio medram/ - Levando heróis e génios ao suicídio - / A fria indiferença, a vil intriga,/ A torpe inveja,/ a feia ingratidão [...]
Por bons ou maus caminhos que sigamos,/ A nossa geração é sempre adversa/ e nem depois da morte nos perdoa", ou na "Epístola aos Vindouros", redigida no ano da sua morte, uma espécie de testamento poético dos "filhos deste século, [...] vítimas inglórias/ Da infância das técnicas", onde esboça uma análise irónica e pungente sobre as conquistas do Homem civilizado, deixando um advertência que chega ao leitor do século XXI com extraordinária e acrescida pertinência.
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