Este Livro Que Vos Deixo

As duas edições póstumas de Este Livro Que Vos Deixo, de 1969 e 1970, da autoria de um poeta popular, semianalfabeto, rapidamente esgotadas, mantiveram durante semanas um lugar cimeiro nas vendas. Para Joaquim Magalhães, "a razão desta singularidade está em que o conteúdo das quadras e dos esboços de teatro, contidos no volume, correspondia a preocupações morais e aspirações sociais que, já por esse tempo, animavam as consciências de grande número de portugueses. E, sob a forma lapidarmente sintética de muitas das quadras do singular poeta algarvio, explodia, ou sorria, a expressão contundente ou contestatária de velados ou explícitos protestos, humanos e justos, perante uma sociedade fortemente policiada e dificilmente vulnerável por outras formas diretas de crítica ou ataque frontal" (MAGALHÃES, Joaquim, prefácio à 3.a ed. de Este Livro que Vos Deixo, de António Aleixo, Lisboa, 1975). Condensando "lições de filosofia" colhidas nas "horas amargas" da vida, as quadras e glosas, recorrendo à métrica e à rima enquanto estratégias mnemónicas, fundam-se frequentemente em símiles e em estruturas antitéticas (mentira/verdade, ser/parecer, enganar/ser enganado, etc.), a que não é alheio um tom entre o amargo e o irónico ("Por de Deus ter recebido / tantas provas de bondade, / já lhe tenho até pedido / a morte por caridade"). A coletânea inclui ainda três autos (Auto da Vida e da Morte, Auto do Curandeiro e Auto do Ti Joaquim), filiados numa forma dramática popular de tipo vicentino.
Como referenciar: Este Livro Que Vos Deixo in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-04-08 00:12:55]. Disponível na Internet: