Esteiros
Depois de Gaibéus, de Alves Redol, Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, é considerada uma das primeiras obras romanescas filiadas numa estética neorrealista, numa primeira fase de afirmação deste movimento literário. Denunciando as duras condições de vida das crianças que trabalham nos telhais para sobreviver, Esteiros apresenta-nos um protagonista coletivo, os "filhos dos homens que nunca foram meninos", como Sagui, Maquineta, Guedelhas, Gaitinhas e Gineto, na sua luta trágica contra a miséria e contra a opressão desumana de uma sociedade submetida à exploração capitalista.
O discurso narrativo é estruturado pela passagem das estações, o que remete para a dependência da atividade económica relativamente à Natureza, impondo à classe que vive do fabrico de tijolos o emprego ou o desemprego, mas também para uma circularidade temporal que aparentemente não é gérmen de mudança, sendo a Natureza espectadora impassível de uma história humana marcada pela gradação crescente de situações disfóricas.
Com efeito, as crianças e algumas personagens individualizadas descrevem um pequeno percurso de vida, onde a desgraça se multiplica, sem esperança e sem remédio, capítulo após capítulo, culminando com situações de morte, prisão, embriaguez, loucura, fazendo eco de um conflito surdo de classes que se institui de forma hierarquizada: Zé Vicente, pequeno tiranete dos telhais, é, ele também, oprimido até à falência pelo proprietário dos terrenos, o Sr. Castro, sendo, como a gente dos esteiros, crianças e adultos, sugado por interesses económicos.
As únicas notas de mudança que indiciam a possibilidade de tomada de consciência e consequente libertação da classe explorada, são, na opinião de Isabel Pires de Lima (prefácio à 5.a edição, 1981), a solidariedade que une os garotos e a partida de Gaitinhas, no fim do romance, símbolo da "busca dessa alvorada libertadora".
No âmbito de uma estética romanesca neorrealista, Esteiros privilegia, numa tentativa de representação verosímil da dinâmica social e não perdendo de vista a acessibilidade da escrita, a objetividade, a frase simples e o discurso direto, dando, sempre que possível, a voz às próprias personagens.
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