Eugénio dos Santos

Arquiteto e engenheiro militar português, Eugénio dos Santos de Carvalho nasceu em março de 1711, em Aljubarrota, e formou-se na Aula de Fortificações, para onde entrou em 1735.
Em 1736 foi-lhe atribuído o posto de Ajudante do Exército da Província do Alentejo e começou uma intensa atividade, tendo edificado fortificações no Alentejo, onde participou com o engenheiro militar António Carlos Andreas, sendo o responsável pelas obras em Estremoz, nomeadamente o Paiol de Santa Bárbara, paço e armazéns.
Desempenhou muitos cargos de relevo, entre os quais o de responsável pelas fortificações da Marinha e inspetor das obras da Corte. No mesmo ano em que se casou (1747), ingressou na Irmandade de S. Lucas, e tornou-se depois capitão-engenheiro e cavaleiro professo da Ordem de Cristo. Pouco tempo mais tarde, foi dispensado desta profissão religiosa pelo rei devido a impedimentos relacionados com razões familiares.
Em 1750 foi-lhe dada a carta de mercê de propriedade de ofício de arquiteto supranumerário das obras dos Paços da Ribeira, de Lisboa.
O Marquês de Pombal, em 1755, logo após o terramoto que destruiu cerca de dois terços da cidade de Lisboa, abrangendo a zona da Baixa, parte dos bairros, do castelo e do Carmo, bem como as zonas mais intensamente povoadas da urbe, chamou-o a participar na sua reconstrução sob a direção do engenheiro-mor do reino, Manuel da Maia, apoiado pelo húngaro Carlos Mardel.
O plano desenvolvido por Eugénio dos Santos, sujeito a regras fixas e definidas, em pragmatismo quase científico, baseava-se numa direção planificada de ruas alinhadas de malha ortogonal obedecendo a traçados e eixos de composição, cuja simetria era composta pelo alinhamento definido entre a Rua Augusta, desde a Praça do Comércio, até ao Rossio.
Alguns dos conceitos ensaiados no plano refletem as preocupações que surgem com a calamidade que assolara Lisboa. A dimensão das ruas foi estudada por forma a que, em caso de terramoto, o desabamento dos edifícios provocasse o menor dano possível.
Eugénio dos Santos foi também o responsável pelo traçado regulador dos edifícios das ruas a reconstruir, constituído por ritmos ordenados de fenestrações que ocupavam a maior parte da superfície, predominando as zonas abertas em relação às fachadas. Todo o plano bem como o traçado dos edifícios estão relacionados com a introdução de um sistema antissísmico, desenvolvido na "Casa do Risco" por Carlos Mardel, e possivelmente em colaboração com Eugénio dos Santos, composta por uma estrutura em madeira autoportante, cuja flexibilidade permitia mantê-la erguida em caso de terramoto, a qual se designou por "gaiola", e de um pano de pedra independente que a rodeava, configurando-lhe os alçados, sendo o conjunto estudado por forma a que a pedra caísse para o lado da rua, diminuindo os danos provocados caso caíssem para o interior do edifício.
Esta prática urbanista de grande rigor compositivo e teórico marca de forma decisiva o perfil urbano da cidade de Lisboa e do urbanismo português da época, tornando-se um elemento de referência no Mundo.
Assistiu ainda à obra do Hospital das Caldas e foi também arquiteto de vários paços reais. Foi ainda arquiteto e diretor da Alfândega Interina, do Real Arsenal, da Nova Alfândega, da Fábrica do Tabaco e da Ribeira dos Paus, tendo elaborado o projeto para o Tribunal e Cadeia da Relação no Porto em 1750, construídos só depois da sua morte, a 5 de agosto de 1760. Juntamente com Carlos Mardel, dirigiu as obras de edificação e decoração do Mosteiro de S. Bento da Saúde, atual Assembleia da República. A ele se deve a estátua de D. José I no Terreiro do Paço.
Depois de ter realizado inúmeras obras públicas de grande impacto e arrojo estético, a sua figura caiu no esquecimento, sendo recordado apenas com breves referências. Só o século XX voltaria dar a importância devida a este notável arquiteto português de Setecentos.
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