Fervor Religioso e Perda de Autoridade das Igrejas

Num mundo que durante os séculos XIX e XX se caracterizou pela extrema instabilidade política e social e pela explosão de novidades em todos os âmbitos - tecnológicos, artísticos e ideológicos, grande parte da população sentiu necessidade de encontrar um apoio naquilo que é mais transcendente e inerente ao ser humano: a sua perceção de religião e de Deus.
Para muitos, as religiões tradicionais, como a protestante e a católica, não correspondiam às novas e extremamente diversificadas formas de viver. Assim, iniciou-se uma procura e, ao mesmo tempo, um proliferação incessantes de religiões não habituais e de novas seitas e grupos religiosos. Como, frequentemente, a religião eleita por um indivíduo não fazia parte da sua tradição cultural e se cultivava essencialmente fora do seu âmbito geográfico, houve uma tendência para personalizar a religião, alterando muitas vezes o seu fundamento, não respeitando todos os seus preceitos. Por outro lado, no final do século XX, proliferaram as crises ideológicas e observaram-se radicais mudanças na ordem internacional, o que aglutinou setores populacionais em torno de crenças religiosas tradicionais, de forma a reencontrarem a sua identidade (ou até uma nova identidade). Tal deu origem a movimentos políticos fortemente nacionalistas e reivindicativos, agregados em torno de um ideal fundamentalista (como é o caso dos movimentos islâmicos, por exemplo).
No que diz respeito à Igreja Católica, os movimentos mais críticos foram os racionalistas, uma vez que puseram em causa, de forma mais clara, os dogmas e a fé depositados num "ser invisível", manifestação que o papa João XXIII tentou mitigar através do entendimento das duas fações e das realidades do mundo contemporâneo, como o que aconteceu no Concílio do Vaticano II (1962-1965). O ecumenismo foi uma tónica nas ações de muitas religiões, sobretudo da católica, que visou a recuperação de um mundo devastado por guerras sucessivas e pelo racionalismo ao incentivar uma maior convivência entre diversas religiões e espiritualidades. A revolução industrial, que originou uma brutal proliferação de operários, gerou uma fase de progressiva perda de autoridade da Igreja Católica, tradicionalmente vista como uma entidade estreitamente ligada aos grandes proprietários e classes superiores. Embora o papa Leão XIII tenha tomado medidas de apoio social e político aos trabalhadores, o seu sucessor, Pio X, recuou neste entendimento e apoio ao modernismo. Contudo, com o desencadear dos conflitos um pouco por todo o mundo no século XX, a Igreja Católica foi abalada, a par das monarquias, não havendo lugar para a religião nos novos regimes totalitários como o comunismo e o nazismo.
Em Portugal, Afonso Costa, em 1911, defendeu arduamente a Lei da Separação da Igreja do Estado, propondo a fiscalização da Igreja à semelhança de qualquer outra organização.
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