filme negro americano

Enquanto que o romance policial dos anos 30, sobretudo o de origem inglesa, tinha como objetivo a descoberta dos criminosos através de uma investigação pela lógica dedutiva, o romance negro americano (chamado hard-boiled) põe em causa a descoberta da verdade, a legitimidade da justiça e o castigo dos verdadeiros criminosos. Neste género de romance, a violência fica muitas vezes impune, os crimes ficam por solucionar e, muitas vezes, escondem verdades horríveis. São filmes feitos de nevoeiro, de vivências atormentadas num espaço urbano labiríntico, em noites que espelham as naturezas angustiadas de todos, heróis e vilãos, que deixam de ser estereotipados para passarem a ser humanos, sobreviventes e, ao mesmo tempo, vítimas de uma sociedade injusta e corrupta. O herói pode ser um polícia, um detetive particular ou um jornalista, cujo passado nem sempre é o mais recomendável mas que muitas vezes se redime através da sua função de enfrentar tanto a justiça como os criminosos. Os anos 40 do pós-guerra foram marcados por este género de crime, baseado na literatura popular denominada pulp fiction, que introduzia uma nova personagem-tipo, a mulher fatal, bela, perigosa, de coração frio, que empunhava armas. Esta nova figura significava o medo da sexualidade feminina, derivado do novo poder que a guerra tinha dado às mulheres quando estas ocuparam o cargo dos homens ausentes e se tornaram independentes. A mulher fatal, inteligente e racional significa um desafio para o herói, tanto em termos de desempenho da sua missão como em termos da sua virilidade que ela ameaça com o seu poder. O filme negro resultante do pessimismo derivado da guerra tinha um toque realista e documental que lhe era dado pelos cenários naturais das rodagens na rua e era influenciado pelo expressionismo alemão cultivado por muitos realizadores fugidos da Europa. A este estilo juntavam-se os enredos e as personagens do romance negro filmado de noite com uma técnica de iluminação que marca este estilo, com projetores, faróis de automóveis, enquadramentos em linha diagonal e posições de câmara oblíquas e instáveis a preto e branco. Ao ambiente urbano e noturno associa-se a água da chuva ou a água dos cais, onde os encontros furtivos acontecem em tons de claro, sombra e escuro. A narrativa desenrola-se em flashbacks, em memórias narradas pela voz do protagonista que propositadamente nos leva e nos encerra no labirinto do passado. The Maltese Falcon (Relíquia Macabra, 1941), de John Huston, e Touch of Evil (A Sede do Mal, 1958), de Orson Welles, marcam, respetivamente, o início e o fim desta época do cinema americano que se opôs a uma época cor-de-rosa de finais felizes em histórias de "algodão" que mascaravam uma dura realidade. Humphrey Bogart e Lauren Bacall em The Big Sleep (À Beira do Abismo, 1946), de Howard Hawks representam alguns dos melhores momentos deste género do cinema que influenciou os realizadores e o cinema de qualidade de todo o mundo.
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