Friedrich Hegel

Nascido em Estugarda em 1770, Georg Wilhelm Friedrich Hegel é geralmente considerado como o «último filósofo da totalidade», tendo marcado o culminar da ambição de sistematismo racional ao tentar integrar todos os domínios da realidade numa arquitetónica englobante que só encontra paralelo em Aristóteles e em São Tomás de Aquino.

Na esteira de Fichte e Schelling, o objetivo central de Hegel será o de reconciliar os dualismos remanescentes da filosofia crítica kantiana (fenómeno/númeno, pensado/pensante, natureza/liberdade, saber/fé...), que classificou como simples filosofia «do entendimento», incapaz de ultrapassar as antinomias que ela mesma evidenciara.

No centro do sistema hegeliano encontra-se a ambição de superar todas as cisões, «elevando o Homem da vida finita à vida infinita», constituindo assim um projeto grandioso de organização do saber como um todo - o saber absoluto: «(...) que a filosofia se aproxime da forma da ciência - do objetivo de poder renunciar ao seu nome de amor do saber e ser um saber efetivo - eis aquilo que me propus».
Com esse fim em vista, Hegel concebe o saber não como um dado mas como um processo, recusando-se a interpretá-lo isolada e independentemente da realidade efetiva. Sensível à essência dinâmica da realidade, todo o esforço sistemático será conduzido à luz da dialéctica, método através do qual pretende apreender o devir, fundamento da essência do pensamento e da realidade.

A característica mais inovadora da dialética hegeliana é a de assimilar, de forma coerente, a negatividade inerente ao real - ou seja, as determinações contraditórias que estão na base do desenvolvimento deste - no esquema triádico a que recorre para explicar o encadeamento dos diversos momentos do devir: tese (momento afirmativo), antítese (momento negativo, de alienação, resultante da própria tese) e síntese (superação da contradição, num sentido unificador que não elimina, mas conserva, as determinações anteriores).

Será de sublinhar que o esquema triádico da dialética não se pretende apresentar como um mero formalismo ou artifício racional para encerrar na pura abstração o dinamismo do real: se, por um lado, funciona como princípio de inteligibilidade assegurando uma descrição adequada do que acontece, ele corresponde, por outro, à estrutura íntima do pensamento e da realidade, pondo em paralelismo a vida e o espírito e autorizando a identificação entre o ser que se manifesta na aparência e a respetiva essência, que se unificam no conceito. Aqui se encontra também a base para a afirmação da evolução simultânea e indissolúvel do ser e do conhecimento do ser, da experiência e da consciência.

Sendo assim, a sucessão não se reveste de qualquer casualidade: todo o devir é produto de um desenvolvimento necessário no e para o espírito que progride historicamente no sentido do saber absoluto (que é, simultaneamente, auto-conhecimento), ou seja, no sentido de se reconhecer como sujeito e como substância, encontrando a identidade final entre o ser e o pensamento («todo o real é racional e todo o racional é real»).

Tal é o processo que Hegel descreverá detalhadamente nas suas obras mais importantes: na Fenomenologia do Espírito, analisando o trajeto da consciência sensível individual em direção à autoconsciência e à razão universal; na Ciência da Lógica, em que se debruça sobre a razão pura («a ideia no elemento abstrato do pensamento»), descrevendo o desdobramento desde os conceitos mais indeterminados (ser, nada e devir) até à ideia absoluta; e na Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome, elaborando um plano sumário de todo o sistema, articulado em três grandes unidades: a «Lógica», ciência da ideia em si e para si, a «Filosofia da Natureza», ciência no seu ser-outro, e a «Filosofia do espírito», a ideia que regressa a si, depois da mediação do seu ser-outro.

Hegel morreu em Berlim em 1831, onde chegou a ocupar o posto de reitor da Universidade, detendo um estatuto privilegiado como filósofo «oficial» do Estado prussiano. No entanto, a ambição do sistema que desenvolveu acabou por se revelar um obstáculo à sua aceitação.

Numa época em que o modelo de objetividade proposto pelas ciências naturais, associado a posições materialistas e empiristas, se começava a afirmar como paradigmático, o idealismo absoluto que professara condenou-o a ser visto como um pensador retrógrado que procurou reduzir toda a realidade ao pensamento, motivo pelo qual grande parte da filosofia posterior se constituiu numa cerrada crítica às suas propostas. Só mais recentemente voltaram a despertar alguma curiosidade a originalidade e as virtualidades que as suas análises encerram.


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