Gabiru

Personagem das obras Os Pobres (1906) e Húmus (1917) de Raul Brandão. Alter-ego do narrador, habitando um "velho pardieiro encostado à muralha da vila" (Húmus), a água furtada de uma trapeira a cujos habitantes dá voz (Os Pobres), o Gabiru subverte a categoria de personagem, integrando o processo de fragmentação da personalidade próprio do modernismo, identificando-se tanto com uma figura a que o eu procura opor-se (para o Gabiru "a vida consiste, encolhido e transido, em embeber-se em sonho, em desfazer-se em sonho, em atascar-se em sonho. Meses inteiros ninguém lhe arranca palavra, dias inteiros ouço-o monologar no fundo de mim próprio. Ignora todas as realidades práticas. Na árvore vê a alma da árvore, na pedra a alma da pedra. Deforma tudo".) quer com uma voz indistinta da do seu criador na formulação de uma "metafísica da dor" esboçada nos "papéis do Gabiru" (Húmus) ou na "Filosofia do Gabiru" (Os Pobres) e resumida na consciência de que "Toda a agitação é inútil", de que não vale a pena ter medo da desgraça, de que a dor é universal e eterna.
Como referenciar: Gabiru in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-02-23 03:28:53]. Disponível na Internet: