Gomes Eanes de Zurara

Cronista régio sob o reinado de D. Afonso V, nasceu após 1410 e morreu entre 1473 e 1474. A partir de 1454, substituiu Fernão Lopes nas funções de guarda-mor da torre do Tombo. A sua atividade literária como cronista, documentada desde 1450, ano em que termina a Crónica da Tomada de Ceuta, compreende ainda a Crónica do Infante D. Henrique ou Livro dos Feitos do Infante, denominada Crónica dos Feitos da Guiné, elaborada entre 1452 e 1453 e refundida pelo cronista após 1460; a Crónica de D. Pedro de Meneses, composta entre 1458 e 1464; e a Crónica de D. Duarte de Meneses, elaborada entre 1464 e 1468.
Desviando-se da orientação e visão do seu antecessor, Zurara não pôde ocupar-se da continuação de uma Crónica Geral do Reino, tendo acedido, após o termo da Crónica da Tomada de Ceuta, que constitui a 3.ª parte da Crónica de D. João I de Fernão Lopes, aos pedidos do soberano para redigir o encómio de personagens individualizadas da nobreza. O próprio relato da Crónica da Tomada de Ceuta combinaria já, ao longo do texto, a glorificação da campanha cavaleiresca dos infantes com o elogio focalizado de certos feitos de D. Henrique. Assim se prepara o terreno para o panegírico de D. Henrique como principal propulsor dos Descobrimentos na Crónica do Infante D. Henrique ou Livro dos Feitos do Infante ou Crónica dos Feitos da Guiné. O papel de cronista da nobreza culmina no relato que premeia os ideais cavaleirescos e a solidificação da conquista no Norte de África na narração da vida e feitos de armas de dois fiéis súbditos de D. Afonso V, a Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, primeiro capitão de Ceuta, e a Crónica de D. Pedro de Meneses, seu filho, capitão e governador de Alcácer Ceguer. Tendo merecido a estima de D. Afonso V e do monarca recebendo vários benefícios, Zurara confere ao registo historiográfico um alcance ético-político, já que, na sua opinião, a composição de crónicas, exemplo para os vindouros, e a justificação do agradecimento do monarca aos servidores que se notabilizaram por "virtuosos trabalhos cavalleirosos" persegue duas finalidades: "A primeira em quanto amoesta aaquelles que veem e ouveem o memoriall das suas virtuosas obras. O quall çertamente he aquelle espelho, que Socrates gramde philosopho mandaua que os homêes mamçebos esguardassem a meude, por tall que os bõos feitos dos seus amteçessores fossem a elles proueitoso emsino (...). A segumda fim he porque sse os homêes semtissem que pollo falleçimento de sua uida, se acabaria toda sua remenbramça, çertamente nom sse poeriam a tam gramdes trabalhos e perigos [...]". A escrita de Zurara apresenta ainda a novidade de ser construída em grande medida sobre o presente. A missão de "daar comta, e razão das cousas, que pasam nos tempos de minha hydade, ou daquellas, que pasaram tam cerca, de que eu posso aver verdadeiro conhecimento...", segundo revela no primeiro capítulo da Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, impõe um trabalho das fontes diverso do do seu antecessor, dada a escassez de registos manuscritos para eventos tão recentes. Daí se conclui que privilegie os testemunhos orais e mesmo a visita aos locais onde se desenrolaram os acontecimentos, como no caso da Crónica de D. Duarte de Meneses, para "tomar miudas e exatas informações do acontecido".
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