grémio

Num sentido imediato, grémio pode ser entendido como comunidade, assembleia ou sociedade, por associação de ideias com o significado latino primitivo do termo. De facto, esta aceção atual deriva da etimologia da palavra latina gremium, que significava seio ou regaço, e era usada num sentido direto (in patris gremio: nos braços do pai). Por analogia e estendendo a aceção figurada do termo, grémio é usado também como sinónimo de corporação, especialmente na aceção profissional da palavra, podendo referir-se o grémio dos sapateiros no sentido da organização profissional de tal grupo.
Este significado da palavra foi o que talvez a tenha marcado de forma mais significativa na língua portuguesa do século XX, uma vez que, durante a vigência do regime corporativo do Estado Novo, grémio era efetivamente o termo usado para designar, entres outras, a corporação profissional, especialmente do lado patronal. Os grémios haviam surgido, quase espontaneamente, como formas de defesa do patronato face à crise dos inícios da década de 30 e foram aproveitados pelo Estado Novo como organização de base, tanto no setor primário como no secundário. Os grémios, neste sentido, tornaram-se, muitas vezes, organizações de filiação obrigatória e serviram como instrumento de controlo do Estado sobre os vários setores da atividade económica. (Consulte-se, sobre este assunto, a seguinte legislação: grémios obrigatórios, Decreto-Lei n.º 23049 de 23-09-1933; grémios facultativos do comércio e indústria, Decreto-Lei n.º 24715 de 03-12-1934; grémios facultativos da lavoura, Lei n.º 1975 de 20-05-1937.)
O responsável governamental pelo setor corporativo (primeiro secretário de Estado, depois ministro) detinha poderes de relevo sobre os grémios e demais organizações corporativas (por exemplo, os sindicatos nacionais); estava nas suas atribuições, por exemplo, afastar direções que fossem contrárias ao espírito do Estado Novo ou até dissolver sindicatos ou grémios que se houvessem afastado dos princípios do corporativismo defendido pelo regime. O termo grémio assumiu, ainda, outros dois importantes significados na História portuguesa recente, totalmente distintos do acima referido: por um lado, a utilização que dele fizeram as organizações maçónicas e, por outro, uma utilização mais consentânea com o seu significado etimológico a que acima aludimos. Analisemos brevemente cada um.
A maçonaria portuguesa utilizou o termo grémio para designar algumas das suas organizações. A título de exemplo, em 1914 a maçonaria portuguesa conheceu uma divisão interna que deu origem à criação do "Grémio Luso-Escocês". Tratava-se de uma organização maçónica dissidente da então existente (Grande Oriente Lusitano Unido). Esta cisão arrastou para o "Grémio" então criado uma parte significativa dos maçons portugueses, conferindo-lhe importância no panorama maçónico nacional. Em 1929, por decisão do Ministério do Interior, a polícia atuou contra o Grande Oriente Lusitano, tendo este "Grémio" sido intimado a encerrar as suas instalações. O termo grémio assume assim, ao longo do processo de instalação e existência da maçonaria em Portugal, o significado de associação ou organização maçónica, significado que manterá até à atualidade.
Grémio foi também usado no seu sentido mais direto, significando associação ou sociedade. Assim, é de referir, a título de exemplo, o Grémio Literário (organização influente no campo artístico no Portugal dos inícios do século), o Grémio Excursionista Civil do Monte (também dos inícios desse século) ou o Grémio Nacional de Editores e Livreiros (que, em 1946, contava com 349 associados).
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