Hegemonia dos EUA

Grandes vencedores da Segunda Guerra Mundial, os EUA ganharam de imediato protagonismo à escala global através do Plano Marshall e da capacidade de resposta e apoio à reconstrução da Europa e do Japão, para além da sua firme oposição à ereção do Bloco de Leste pró-soviético. Depois da criação da NATO e do seu importante papel no quadro da ONU, os EUA reforçaram a sua política de intervenção externa em conflitos regionais sempre em vista do afastamento de potenciais regimes comunistas pró-soviéticos.
A hegemonia americana cimentou-se em grande escala no período decorrido entre a vitória dos Aliados em 1944 e a sua derrota no Vietname, em 1975, passando pela retirada da Coreia em 1953, pela humilhação da Baía dos Porcos (Cuba, 1961) e pela imolação da nação nos arrozais e florestas do Vietname até 1973. Depois veio a travessia do deserto e a partilha da supremacia económica com o Japão e a CEE, com os reveses do Líbano e do Irão, os problemas na América Central e a eterna luta com a União Soviética pelo domínio balístico intercontinental e do armamento nuclear.
Tudo começou com o poder económico americano nos anos 50 do século XX, quando os EUA eram responsáveis por mais de metade do produto interno bruto mundial (atualmente 21%), por 60% da produção industrial (atualmente 25%), entre outros indicadores de clara supremacia material, ontem como hoje, da nação do Tio Sam. No entanto, como se viu, e depois dos amargos anos 70 e 80 da economia americana, apesar da recuperação de finais dos 80, a hegemonia económica dos EUA não é o que já foi. Daí a procura da supremacia militar como forma de recuperar a hegemonia económica, numa nação que desde os anos 60 passou a ser também devedora, com défices e inflação por vezes assinaláveis, além de dependência energética e mineral. O carácter multinacional da economia americana depende do establishment militar do país, que lhe serve de apoio, bem como suporte de alianças estratégicas e canais de comércio abertos e seguros. É o exemplo da presença militar americana na Arábia Saudita ou da intervenção no Koweit em 1991 e atualmente em relação ao Iraque, onde poderá, através da sangrenta Pax Americana assegurar o controlo e exploração dos abundantes campos petrolíferos iraquianos. O fim da União Soviética em 1991 guindou os EUA para a condição de única superpotência mundial, o que os levou a alterar a sua posição no mundo, a sua atitude política externa e a sua margem de intervenção, numa lógica de expansão que parece que só poderá conhecer rival à altura na emergente China. Mas o fim da URSS acabou com a razão de existir da NATO, cujo objetivo reitor foi a luta contra a...URSS! Desde 1991, os EUA têm procurado justificar a existência da organização militar, muito útil aos seus ideais hegemónicos na sempre difícil e reticente Europa. A NATO foi particularmente útil aos EUA aquando da resolução militar do conflito do Kosovo em finais de 90, além de ter conseguido, até hoje, limitar a capacidade de atuação militar e estratégica da Europa fora do Velho Continente, sujeitando-se sempre à aliança com os EUA.
A hegemonia americana experimentou o seu mais amargo travo desde o Vietname aquando do 11 de setembro de 2001, quando ficou a conhecer o seu novo inimigo, silencioso mas brutal, capaz de operar dentro dos EUA, algo inédito na História: a al-Qaeda de Ossama bin Laden, o mais terrível adversário americano. Até hoje, depois dos atentados de Nova Iorque, do Quénia, do Iemen, entre outros, depois da campanha do Afeganistão iniciada em 2001-2002, a hegemonia americana tem sido pontualmente sacudida e posta em causa pelo fundamentalismo islâmico, o único inimigo capaz de fazer tremer os EUA, provocando, desde 2003, a segunda imolação americana depois do Vietname: o Iraque.
Os apoios na Europa não foram muitos (Grã-Bretanha, Espanha, Polónia, Portugal...), sempre polémicos e com as críticas da França e da Alemanha, além de quase toda a opinião pública mundial, opositora também de outro instrumento de supremacia americana, desta feita de carácter económico: a globalização neoliberal. Incapaz de resolver a questão iraquiana e do Afeganistão, prevenindo-se nas Filipinas e na Indonésia de eventuais ataques à sua hegemonia no Sudeste Asiático, onde emerge o gigante chinês e o risco de uma escalada de guerra entre a China e o aliado americano na região, Taiwan, sem solução ou força para dissuadir a Coreia do Norte e o Irão a abandonarem as suas estratégia nucleares, longe de se encontrar paz no conflito israelo-árabe ou de resolver o flagelo do narcotráfico sul-americano, para não falar do seu inimigo mais próximo – Cuba... - os EUA conhecem atualmente um rival em grande expansão, a União Europeia, que ombreia já com o Tio Sam em termos comerciais e produtivos, marcada pelo eixo Paris-Berlim e pela contestação europeia à política militar e à guerra ao terrorismo que marcam os esforços de supremacia americana no mundo na atualidade.
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