Heresias e Antissemitismo

A partir do século XI a Europa viveu momentos de grande tensão religiosa, dos quais transparece a necessidade de conferir à cristandade medieval a unidade quer da fé quer das práticas culturais. Foi assim que se procurou fazer frente ao Islão em Espanha e na Terra Santa e ao paganismo eslavo. Por isso muito se investiu no movimento das Cruzadas motivado pelo desejo máximo de conquistar os lugares santos que estavam na posse dos muçulmanos. Em 1095 o Papa Urbano II exortava os cristãos do Ocidente a encetarem uma guerra contra o Islão e para que se pudesse pôr em prática a execução deste objetivo, a 15 de julho de 1099 a primeira cruzada levou a bom termo a missão de conquistar Jerusalém. A última e oitava cruzada teve lugar em 1270; no entanto, redundou num fracasso total, pois as cidades palestinianas acabaram por cair nas mãos dos turcos.
Desenharam-se também por esta altura dois problemas com que a Igreja teve de se debater ferozmente durante um largo período: as heresias e a questão judaica.
O aparecimento de heresias populares no início do século XI resultou de uma transformação económica e social - que gerou tensões - e da tomada de consciência da necessidade de maior justiça. Acima de tudo reflete o grande êxito da difusão dos ensinamentos veiculados pela Igreja junto dos fiéis, fazendo passar a mensagem da obrigatoriedade de reforma dos costumes e da sociedade. O homem medieval mais atento e desperto para as questões religiosas pôde formular os seus próprios juízos de valor. Percebeu a importância que constituía o regresso à pobreza apostólica preconizada pela antiga Igreja, tendo como modelo a pregação errante de Cristo e dos Apóstolos. Esta nova posição levaria rapidamente ao confronto com a Igreja instituída, que vivia em condições fautosas com a particularidade de os bispados e de as abadias se encontrarem nas mãos de príncipes e nobres, estabelecendo-se, deste modo, estreitas ligações entre o clero e os senhores feudais. A procura de um novo ideal e o regresso à antiga pobreza por parte dos leigos poderia eventualmente colocar em perigo a doutrina ao provocar pensamentos heréticos. Os primeiros sinais de heresia surgiram em França e no Norte de Itália por volta do ano 1000 e já no século XII a ação dos hereges estava largamente difundida. Um dos mais famosos foi o italiano Arnaldo de Bréscia que criticou duramente o papado e preconizou uma Igreja completamente despojada de bens. Os seus adeptos designados de Arnaldistas integrar-se-iam posteriormente nas seitas Cátara e Valdense. A heresia Valdense teve origem em Pedro Valdo, comerciante em Lião (França), que através da leitura do Evangelho de S. Mateus deu corpo ao ideal de pobreza ali expresso. Iniciou um apostolado de pobreza e penitência reunindo rapidamente um grande número de seguidores que tomaram o nome de pauperes Chisti, mais conhecidos por pobres de Lião. O carácter da sua pregação contra as instituições eclesiásticas introduziu o perigo na medida em que abordavam questões de fé. Por isso, o bispo de Lião determinou que se abstivessem de se pronunciar relativamente a essas questões porque não estavam habilitados para tal. O mesmo recomendou o Papa Alexandre III no III Concílio de Latrão, realizado em 1179. Valdo continua a sua pregação e o bispo de Lião volta a proibi-la por não ter cumprido a recomendação papal. Dirige-se então a Roma para obter a autorização mas o Papa Lúcio III foi mais radical condenando o movimento e proibindo a pregação em 1184. O chefe do movimento acabou por ser excomungado e perseguido e o movimento tornou-se clandestino, enveredando definitivamente pela defesa de doutrinas heréticas.
Os Cátaros, por seu turno, foram os responsáveis por um movimento herege que assenta numa base maniqueísto-dualista não cristã. Os seus pressupostos são os seguintes: o mundo foi criado pelo Demónio que exerceu sobre ele o seu domínio (Deus do Mal do Antigo Testamento); Jesus Cristo fora enviado pelo Deus do Bem do Novo Testamento, trazendo a missão de ensinar aos homens o modo de se libertarem para entrarem no Céu revestidos de pureza. É esta ideia da necessidade de purificação que lhes dá o nome: Katharoi/Cátaros. Este objetivo só se alcançaria mediante a prática de uma rígida ascese e de uma total negação do mundo. Os "perfeitos" deveriam evitar o contacto com as coisas impuras sendo considerados atos pecaminosos o matrimónio, as relações sexuais, o trabalho manual e a posse material. Rapidamente o movimento espalhou-se por toda a Europa com uma larga aceitação entre os defensores da pobreza evangélica e organizaram-se em episcopados, à semelhança do que acontecia no seio da Igreja Católica. A sua maior implantação verificou-se no Sul da França, particularmente em Albi, razão pela qual também são designados albigenses. Consideravam os padres pessoas pecadoras e pregavam contra os sacramentos. Numa sociedade fortemente marcada pela união do Estado com a Igreja, as duras críticas e a radicalização das posições levadas a cabo pelos Cátaros acabaram por afetar também o Estado. Equiparavam mesmo o seu máximo representante ao demónio. Os nobres, contrários à política do rei de França, aproveitaram esta posição radical e uniram-se aos Albigenses, o que resultaria nas sangrentas guerras albigenses que ocorreram entre 1209 e 1229 com este carácter duplo: guerra política mas também guerra religiosa.
É no contexto destes conflitos e da luta contra as heresias que se deverá compreender a criação e a ação da Inquisição que foi a obra conjunta do Estado e da Igreja. Foram os próprios monarcas que propuseram formas de castigar os hereges e uma das quais era a fogueira, por sugestão de D. Pedro II de Aragão, em 1197. O problema das heresias tomou tal amplitude que o Papa Inocêncio III acabou por proclamar uma Cruzada contra a heresia em 1209 que acarretou gravíssimas consequências para a cultura francesa meridional.
Em 1213 criou-se um grupo de inquisidores próprios cuja função era perseguir todos aqueles que eram suspeitos de heresia. Foi neste contexto - combate aos Albigenses - que a ordem dominicana teve a sua maior ação. Foi-lhes concedido por Inocêncio IV, em 1225, o poder de torturar os suspeitos de forma a obterem a sua confissão. Esta medida rapidamente levou a excessos que marcaram profundamente e da forma mais negativa a história da Igreja.
A questão judaica já tinha sido colocada no período carolíngio. As comunidades eram relativamente numerosas e prósperas, principalmente no território francês. O receio de contaminação religiosa fez com que os bispos apelassem aos monarcas de modo a poderem ser aplicadas medidas de coerção que Carlos Magno, Luís o Pio e Carlos o Calvo não tinham conseguido levar à prática. O anti-judaísmo cristão só se verifica após a realização da primeira cruzada com a deterioração rápida das comunidades. Apesar das dificuldades que os judeus começaram a sentir no seio do mundo católico ainda foi possível que duas comunidades alcançassem um grande destaque. Uma delas estava implantada em Espanha, cuja prosperidade e importância atingiu a maior expressão no século XI devido às funções que desempenhava no seio da comunidade muçulmana. No século XIII surgia o movimento cabalista, quer entre esta comunidade que o difundiu, quer no seio das que se encontravam disseminadas pelo território francês. A Reconquista não provocou qualquer reação contra os judeus em Espanha, pelo contrário, foram-lhes concedidos privilégios como os que datam da época de Afonso VI. Só com Afonso, o Sábio, na segunda metade do século XIII, é que se promulgou legislação que afetava negativamente os judeus mas que na prática não teve uma efetiva aplicação. A ação dos Reis Católicos marca, de facto, o fim da permanência dos judeus em Espanha, quando procederam à sua expulsão.
Outros centros judaicos de grande importância eram os que estavam estabelecidos na Renânia e na região de Champanhe e que eram detentores de uma cultura judaica de cariz germânico chamada Ashkénazy.
As origens do antissemitismo encontram-se plenamente radicadas durante a realização da primeira cruzada. Os cristãos sempre consideraram os judeus como um povo diferente e a animosidade teve início quando os judeus do Oriente auxiliaram os turcos seljúcidas, na Terra Santa, na perseguição aos Cristãos que fizeram parte daquela cruzada. Os judeus não participaram nas cruzadas, porque não tinha qualquer sentido libertarem o sepulcro de um homem a quem não reconheciam a divindade. No Ocidente começam a levantar-se opiniões contra os judeus num ato de vingança para com o povo que foi o responsável pela morte de Cristo e que continuava a perseguir os cristãos. As manifestações mais violentas de antissemitismo tiveram início na Renânia e rapidamente se difundiram. O facto de os judeus se mostrarem incrédulos relativamente à divindade de Cristo muito contribuiu para o aumento da violência.
O quarto Concílio de Latrão, realizado em 1215, estabeleceu uma base jurídica (cânone 68) para a exclusão dos judeus e impõe-lhes o uso de um sinal distintivo - uma roda amarela de tecido que era cosida na roupa ao nível do peito. Foram afastados de cargos públicos podendo apenas dedicar-se ao comércio. O grande sucesso que alcançaram nesta atividade exacerbou a animosidade dos cristãos que não viam com bons olhos uma prosperidade financeira que os ensombrava. Os judeus seriam expulsos da França no início do século XV.
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