horacianismo

O horacianismo diz respeito à influência da poética e do pensamento do poeta latino Horácio (Venúsia, 65 a. C.-Roma, 8 a. C), autor da Arte Poética e das Odes. Exprime-se não só na construção poética e retórica mas, sobretudo, nas temáticas da brevidade da vida e da passagem do tempo, da caducidade das coisas, da necessidade de imperturbabilidade perante a força do destino, do conselho à moderação, do convite a gozar cada dia que passa ou da beleza da natureza.
Quinto Horácio Flaco, após a sua educação em Roma e Atenas, estabeleceu-se em Roma como escriba de questores, tornando-se protegido do imperador Augusto e de Mecenas; este ofereceu-lhe uma casa no campo, onde passou a receber os amigos e a cultivar os seus frutos, numa perfeita "áurea mediania". Nas Odes, que são a sua obra-prima, o poeta, influenciado pela filosofia e pelas formas poéticas gregas, procura exprimir pensamentos com sentido ético e sentimentos que são de todos os tempos, mas também pessoais. Seguindo o pensamento do filósofo grego Epicuro (341-270 a. C.), recomenda o gozo dos prazeres como caminho da felicidade, exortando a aproveitar o dia, de forma tranquila e sem preocupações com o amanhã. Numa das cartas em verso - Epistula ad Pisones - mais conhecida por Arte Poética, Horácio defende a conceção do poema como um todo harmonioso, com unidade, clareza e ordem; e considera a necessidade do poeta trabalhar as suas produções, dizendo que "o bom gosto é a principal fonte de inspiração" ("scribendi recte sapere est principium et fons").

A literatura neoclássica procurou seguir o horacianismo, com os árcades a advogarem o bucolismo, a vida campestre, simples, junto à natureza, num lugar ameno (locus amoenus); a vida longe do luxo e melancolia da cidade, em lugares sossegados; o prazer das coisas simples e belas da vida, da "aurea mediocritas" ("mediania de ouro", ou seja, a condição média de uma vida comum, com paz e tranquilidade); a necessidade de aproveitar o dia e os prazeres ("carpe diem"). O horacianismo é retomado por Ricardo Reis, o heterónimo de Fernando Pessoa, que, como Horácio, escreve Odes em estilo sentencioso e elegante, frequentemente recorrendo a construções latinas. Revela, também, o mesmo propósito ético, ao celebrar o "carpe diem" (aproveita o dia, goza o momento), ao exprimir a busca do equilíbrio da "aurea mediocritas, ao seguir os princípios do epicurismo e do estoicismo, que o poeta latino assimilou da filosofia grega. Também as ideias sobre o amor e a paixão amorosa presentes em Ricardo Reis revelam a influência de Horácio e mostram a necessidade de saber desfrutar os prazeres. Até o nome Lídia, muitas vezes usado, é importado de Horácio, que, por exemplo, na Ode XIII, do livro I (tradução de Eugénio de Andrade), afirma "Acredita-me, Lídia, há de ser fugidio / o amor de quem tortura essa boca formosa".
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