Igreja de S. Salvador (Carrazeda de Ansiães)

A igreja de invocação a S. Salvador, em Carrazeda de Ansiães, é um testemunho de valor excecional do Românico nordestino. Destaca-se pelas suas proporções, harmonia e decoração escultórica. A arquitetura da igreja denota uma grande qualidade conceptual, desconhecendo-se, no entanto, o responsável do risco e realização da obra.
A igreja, de pedra granítica aparelhada, ergue-se junto à porta do castelo, não se sabendo, em rigor, a data da sua fundação. A filiação estilística do templo na arte românica não significa que não seja posterior, dado o apego que persistiu no Norte de Portugal a esta corrente estilística. Pelas lápides que se encontram no terreiro, como letras e armas gravadas de ordens militares, é plausível aceitar que aqui se encontram enterrados os cavaleiros que lutaram contra Castela, numa batalha desenrolada num ribeiro próximo, e que para a vitória muito contribuíram os Sampaio, senhores da vila de Ansiães.
A fachada da igreja é marcada por dependência medieval em ruínas, possivelmente a casa do padre, que se encosta ao alçado no ângulo direito. Mas, sem dúvida, o que a domina é o seu impressionante portal, composto por quatro arquivoltas de arco pleno sustentadas por capitéis. Pela sua ornamentação, é considerado um portal de exceção. Envolvem as arquivoltas variadíssimas temáticas decorativas: fitomórficas, de perfis salientes, simbólicas, figuras antropomórficas, zoomórficas, etc. No segundo arco interior, aparecem-nos representados S. Pedro, S. Paulo e mais sete figuras: umas ostentando livros e uma outra um pequeno macaco. As arquivoltas seguintes mostram-nos vários tipos de animais e distorcidas cabeças humanas - com exceção de uma, tão realisticamente esculpida que já foi levantada a hipótese de ser a do próprio escultor. Este magnífico conjunto escultórico é reforçado pelo trabalho desenvolvido no tímpano. De perfil pouco saliente, o tímpano é delimitado por fina folhagem. Ao centro, o Padre Eterno inscrito na mandorla, ladeado por quatro figuras atarracadas (duas de cada lado), desconhecendo-se o seu significado. Para tornar ainda mais intrigante e misterioso o portal, aparece gravado neste um grande número de letras e siglas. Estas repetem-se pelas paredes da igreja, sendo algumas de grande beleza.
À frontaria falta parte da empena triangular e da torre sineira. As fachadas laterais são animadas pelos singelos modilhões dos beirais e por duas portas, também elas excelentemente ornamentadas. As portas são compostas por arco alteado, seguido de friso e impostas delicadamente lavrados por semicírculos e enrolamentos de volutas nas extremidades. Sustentam o arco colunelos de curto fuste com capitéis ornamentados. O tímpano é preenchido por cruz pátea vazada. A verga da porta é contornada por friso lobulado.
O interior do templo, de planta retangular e nave única, apresenta duas portas laterais e uma axial. Aposta a esta última está a capela-mor, onde se encontrava um altar com um sacrário e uma imagem do santo padroeiro. Mais tarde, na nave foram introduzidos dois altares - um de N. Sra. do Rosário e o outro dedicado a S. Brás, ostentando a imagem do santo mártir e um pequeno cofre de prata com as suas relíquias. A iluminação do templo é feita através de quatro esbeltas janelas geminadas, duas em cada fachada lateral.
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