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Igreja de Santa Cruz do Convento de S. Domingos
O Convento de São Domingos de Viana do Castelo foi fundado no ano de 1563 pelo recém-nomeado arcebispo primaz D. Frei Bartolomeu dos Mártires, que a Foz do Lima tomaria por padroeiro, e durante vários séculos permaneceu sendo o edifício mais vultuoso daquela antiga vila. Após a sua extinção, em 1834, o conjunto foi sujeito às costumadas mutilações e sevícias, passando a igreja a albergar a paróquia de N. S. de Monserrate e sendo instaladas nas restantes dependências diversas repartições públicas.
A igreja, da invocação de Santa Cruz, começou a construir-se em 1566, com a abertura dos alicerces da capela-mor e só estaria concluída dez anos mais tarde, embora já se encontrasse aberta ao culto desde o ano de 1571. É considerada um paradigma das origens do chamado «estilo chão» e o seu risco deve-se ao dominicano frei Julião Romero - que anteriormente traçara o templo de São Gonçalo de Amarante -, a quem o venerável prelado impôs a moderação do seu «engenho e magnanimidade», ordenando a partir do Concílio de Trento «que o edificio seja forte mas pobre porque dessa maneira Deos sera servido».
No seu exterior, de aspeto vagamente militar, o destaque vai para o magnífico pórtico de feição retabular e para os espetaculares cubelos de influência francesa colocados sobre os contrafortes dos ângulos exteriores da capela-mor, solução inédita no panorama artístico português. Internamente, merece particular realce o retábulo maneirista da Capela de N. S. dos Mares e o retábulo barroco da Capela de N. S. do Rosário, bem como o belo sarcófago de mármore de Pero Pinheiro onde repousa o prelado fundador.
A frontaria, de belo efeito cenográfico, é marcada pelo sobressaliente retângulo de granito de Afife que constitui o corpo central, no qual se recorta o esplêndido retábulo-fachada de inspiração clássica que contém o pórtico, solução muito utilizada em Espanha nos meados do século XVI. É ao gosto renascença, desenhado em três ordens sobrepostas de interpretação algo livre, combinando a sua decoração elementos alusivos à temática dominicana e à História da Igreja. Nos lados, o decorativismo retabular é fortemente contrastado pela simplicidade dos pequenos corpos revestidos de cal e rematados por aletas.
No exterior, além dos elementos já referidos, são ainda dignos de nota os enormes gigantes que amparam a parede do lado sul e a torre quadrangular datada de 1707.
O interior do templo é amplo e bem proporcionado, mas o espírito contra-reformista da época terá certamente contribuído para a sua austeridade. Tem planta cruciforme e nave única, com fundas capelas laterais intercomunicantes e larga cabeceira; e, no alto, um belo teto de madeira em caixotões. Na capela-mor, além do retábulo de talha dourada setecentista, encontra-se a marmórea arca tumular do fundador, falecido em 1590.
Do conjunto de capelas salienta-se a da Senhora dos Mares - transformada em batistério -, que possui um belo retábulo de talha maneirista datado de 1613, do qual se destaca um painel esculpido com uma cena alusiva à entrada da barra de Viana; e sobretudo a de N. S. do Rosário, situada no braço norte do transepto, com o seu exuberante retábulo de talha barroca de estonteante movimento e belíssimo efeito plástico. O seu desenho foi encomendado pela Confraria do Rosário, no ano de 1760, ao célebre artista minhoto André Soares, e a sua execução entregue ao mestre entalhador bracarense José Alvares de Araújo, sendo considerado pelo distinto investigador Robert Smith «uma obra-prima do estilo rocaille de toda a Europa».
Foi classificada Monumento Nacional por decreto de 16 de junho de 1910.
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