Igreja de Santa Maria de Marvila

A Igreja de Santa Maria de Marvila é sede de uma das mais antigas paróquias da cidade de Santarém. Segundo reza a lenda, o nome de Marvila teria derivado do de Nossa Senhora das Maravilhas, invocação que D. Afonso Henriques dera a uma imagem da Virgem oferecida àquele templo por São Bernardo de Claraval.
Desconhece-se a data da sua fundação, tradicionalmente atribuída aos Templários, que a teriam edificado logo após a conquista da cidade, no ano de 1147. Todavia, alguns autores admitem a possibilidade de a sua origem ser mais remota, considerando que os Cavaleiros do Templo teriam então reconstruído um edifício que os muçulmanos haviam poupado.
Passou a fazer parte da Mitra de Lisboa no ano de 1149, e data de 1244 a sua elevação a colegiada, sob o patrocínio do bispo de Lisboa D. Aires Vasques. Do período gótico apenas subsistem as portas do batistério e do coro, pois todo o conjunto sofreu uma profunda reforma nos inícios do século XVI, por iniciativa do Venturoso, que o dotou da vincada feição manuelina que ainda hoje ostenta, pese embora a profusão e variedade do posterior revestimento cerâmico, ao ponto de Santos Simões a considerar a «catedral do azulejo» seiscentista. Do discreto exterior da igreja, destacam-se as frestas e o magnífico portal manuelino, finamente lavrado, de arcos policêntricos trilobados, flanqueado por dois pilares rematados com pináculos floridos, e coroado de troncos cogulhados que rompem a meia cana envolvente do arco exterior. A antiga torre sineira, situada do lado direito da frontaria, que era coroada por um elevado coruchéu de formato piramidal e possuía na base dois arcossólios góticos, foi demolida no século XIX pelo camartelo municipal, que pretendia assim ampliar o largo da igreja.
O interior foi refeito após o terramoto de 1531, e João Barreira considera-o obra renascentista de João de Castilho. Tem três naves, com arcos de volta perfeita sustentados por doze elegantes colunas de capitéis jónicos, a uma das quais foi adossado o elegante púlpito dos finais do século XVII, de mármore e com parapeito de caneluras coríntias. Sobre o arco triunfal polilobado, aberto à maneira de cortina de aparato, foi colocada uma pintura circular seiscentista retratando o Calvário, de forma a cegar o primitivo óculo. A cobertura é de madeira e a iluminação processa-se através de nove altas frestas distribuídas pelo corpo da igreja, cinco do lado da Epístola e quatro do lado do Evangelho.
A capela-mor é coberta por uma abóbada de pedra polinervada, estando os fechos das nervuras decorados com os costumados emblemas de ostentação realenga, cobertura essa que, posto que mais modesta, igualmente apresentam os dois absidíolos que abrem para o transepto através de arcos apontados. No retábulo do altar-mor, de talha dourada de estilo barroco, foi colocada uma tela representando a invocação da igreja - a Assunção da Virgem -, executada em 1829 por Archangelo Fuschini, professor da Escola de Artes criada pelo príncipe regente D. João para dar apoio às obras do Palácio da Ajuda.
As paredes interiores do templo são totalmente revestidas por silhares de azulejos de belíssimo efeito decorativo, que se podem dividir em dois grandes grupos: o dos de tipo padrão - azuis, amarelos e brancos - e o dos enxadrezados - azuis e brancos. Esta monumental empresa foi executada entre 1617 e 1642 pelo mestre azulejador olissiponense Gaspar Gomes, conforme se prova através de um manuscrito inédito, donde consta ter recebido 100 000 réis pelo revestimento da capela-mor, arco triunfal e «cruzeiros piquenos», e 964 100 réis pelo posterior revestimento total do corpo da igreja.
A sacristia tem um teto de madeira em forma de abóbada de berço, pintado no ano de 1690 com largos ornatos policromos. As paredes estão forradas com azulejos de diversos tipos, merecendo particular destaque o grande arcaz de madeira e o crucifixo de marfim de matriz indo-portuguesa, colocado sobre uma cruz de tartaruga com guarnições de metal amarelo.
Foi classificada Monumento Nacional por decreto de 27 de agosto de 1917.
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