Igreja Matriz de Alcochete

Alcochete, provavelmente fundada no ano de 850 a. C. e tornada vila com D. João II, foi berço do rei D. Manuel I (maio de 1469), que, em 1515, lhe concedeu foral. Este soberano teve sempre um gosto especial por esta vila, muito contribuindo para o seu engrandecimento e, consequentemente, o da matriz, à semelhança de seu pai, o infante D. Fernando, mestre da Ordem de Sant'Iago da Espada e que aqui residiu.
O templo é muito antigo e pressupõe-se ter sido construído sobre as fundações duma primitiva mesquita. Sofreu remodelações várias (início do século XVI e seguintes) e em 1943 libertou-se de antigas construções que o encobriam, numa recuperação levada a cabo pela D.G.E.M.N.
Na frontaria, aparentemente desequilibrada, ressalta de imediato a torre sineira de aparelho manuelino, com coruchéu ornado de pináculos nos cunhais e recoberto de azulejos. A torre, onde se rasgam dois arcos sineiros, desempenha igualmente a função de contraforte em relação à fachada e às naves. O belíssimo portal gótico ostenta quatro arquivoltas ogivais glabetadas, ladeadas de colunas com capitéis de decoração vegetalista. Inscrito no tímpano do gablete está a cruz de Sant'Iago rematada por cruz de Cristo. A cruz é encimada por lindíssima rosácea em pedra filigranada. Ainda do gótico final é o portal sul, lateral, de perfil em lanceta com duas colunas de capitéis que se enquadram na temática decorativa do estilo, com trabalho trilobado a nível do intradorso do arco menor. Entre este portal e a torre sineira insere-se um painel de azulejos barrocos versando Cristo na cruz.
O corpo da igreja possui três naves de quatro tramos que se desenvolvem sobre arcaria de volta perfeita, assente em colunas cilíndricas coroadas por capitéis de cariz vegetalista. O espaço é rematado por cobertura de madeira apainelada em três planos. No corpo da nave central destaca-se de imediato o púlpito renascença, embebido na escada que circunda em hélice a última coluna do flanco do evangelho. De corpo balaustrado, o púlpito assenta em pé de perfil bolbiforme. A pia de água benta, quatrocentista, é um notável exemplar de cálice apoiado em quatro colunelos, com o terço superior do fuste marcado por toros e cabeças humanas relevadas, a par com motivos vegetalistas.
A capela-mor, com arco triunfal de grande simplicidade, deixa-se fechar por abóbada de berço renascença com trabalho de caixotões, cobertos com nove alegorias e símbolos decorativos. O retábulo do altar-mor, do século XVII, é um bom exemplo de trabalho de talha dourada que se rasga ao centro por tabernáculo com trono. Lateralmente, as paredes vestem-se de alizares azuis e brancos do século XVIII, formando painel (Nascimento de S. João Batista e Batismo de Jesus), encimados por quatro telas igualmente seiscentistas, representando passos da vida do orago: nascimento, pregação, Salomé e a degolação de S. João Batista.
As paredes das naves são decoradas por variados lambris de azulejos de distintos períodos (manuelinos, mudéjares, de aresta), também responsáveis pela decoração de frontais de altares.
Segundo reza a lenda, a desaparecida imagem do galeão "N. Sra. da Conceição", fundeado no Tejo, deu intacto à costa em Alcochete, no ano de 1641. Uma imagem de N. Sra. da Conceição, ligada a este milagre, é venerada num altar de talha barroca aberto na nave setentrional. Figura seiscentista, apresenta-se sobre globo rodeada por anjos e serpente, mantendo viva a crença de que o seu achado foi obra de milagre, o que rapidamente consubstanciou generosas dádivas.
A capela do Evangelho, definida por arco ogival ladeado de colunas, é dedicada a N. Sra. do Rosário e possui belo teto com abóbada de artesoado gótico, ornada de três bocetes; revestimento azulejar do século XVII, retábulo barroco e restos de um silhar de aresta colateralmente. Alberga as esculturas policromas da Virgem com o Menino, Sto. António e Pedro Apóstolo (seiscentistas). Lindíssimas são decerto as imagens quinhentistas de Sta. Luzia, S. Vicente e Sto. André, e o belo crucifixo que ornamentam a matriz.
A capela batismal, na entrada do templo, possui pintura a fresco alusiva ao Batismo de Cristo. A sacristia ostenta duas belíssimas pinturas do século XVI, atribuídas ao mestre da Lourinhã e procedentes da Ermida de N. Sra. dos Matos, de nítida influência flamenga. O arcaz e o lavabo, aí localizados, são também obras de bons artífices anónimos.
Como referenciar: Igreja Matriz de Alcochete in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-06-20 07:54:25]. Disponível na Internet: