Impérios Comerciais da África Ocidental
Antes da descoberta da América, a circulação monetária europeia e norte-africana foi dominada por dois grandes vetores, zonas também de difusão: a produção de prata do Leste Europeu e a produção de ouro, a partir do Sudão. Interessa salientar esta última dimensão. A estreita ligação da Península Ibérica com a África através do Islão garantiu um fluxo deste metal quase ininterruptamente durante boa parte do período medieval. Tal se deve, em grande parte, aos Almorávidas que construíram um império que ia do Senegal ao Tejo. O império almorávida foi um império do ouro, cujo berço foi uma feira desse mesmo ouro: Sidjilmessa. As suas moedas chegaram a toda a Cristandade. Na Península chamavam-se "morabitinos" ou "maravedis", consoante se tratasse de Portugal ou de Castela. O ouro muçulmano comandou a evolução monetária portuguesa: mais concretamente o ouro do Sudão. Este teria sido o alvo das viagens dos descobrimentos quatrocentistas. A luta das caravelas contra as cáfilas de camelos é que constituiria um dos fios condutores desta história. Seria com as caravanas de camelos que a feitoria portuguesa de Arguim teria de negociar.
Entre o século III e o século VII há um elemento novo de capital importância no desenvolvimento de importantes fixações humanas de um lado e de outro do grande deserto do Sara: o surgimento e expansão das tribos nómadas, muito provavelmente pela domesticação do dromedário, elemento fundamental na deslocação destes povos. A expansão nómada vai trazer enormes implicações: as escassas comunidades agrupadas em volta dos oásis, negros e brancos que aí viviam pauperrimamente, passam a ficar dependentes, até em termos de liberdade, dessas tribos de longo raio de deslocamento. O próprio oásis vê a sua fisionomia modificada com a introdução dos palmares de tamareiras, árvore cuja reprodução só por intermédio do homem se assegura. Uma camada senhorial passa então a cobrir os negros dos oásis; e a fim de manter esta população negra de cultivadores semilivres (os harratin), firmou-se a importação ampla e regular de cativos da Guiné. É que, como se pode verificar, este movimento tem o seu grande caudal numa linha entre o Sul e o mediterrâneo sariano. Contudo, a dimensão destes contactos leva à busca de centros nas franjas do continente, junto ao mar, ainda grandemente povoadas nesta época. O litoral atlântico sariano revela, por outro lado, potencialidades: aí se encontram facilmente pastagens, pontos de água e peixe seco e sal (muitas vezes em barras) que se compra ou rouba aos pescadores azenegues. É, portanto, um domínio de predileção para os nómadas, que o trilham em todos os sentidos, em enormes percursos. Trata-se, portanto, de uma via de comunicação natural entre o Senegal e o Suz. O litoral atlântico representava uma linha comercial com ramificações para norte e para o interior, dinâmica e variada. O sal em barra é carregado por caravanas de Audaghoste que o vêm buscar propositadamente a Aulil, por exemplo, para o levar para os mercados negros. O mesmo comércio conhecia grande movimento através do rio Senegal. Do litoral, os cameleiros e os barqueiros levavam igualmente âmbar cinzento e goma, mercadorias posteriormente reexportadas para Marrocos. Outras caravanas transportam estes produtos diretamente de Trarza (região de Aulil) ou Arguim para o Suz. Nos pontos de partida, ao longo do Baixo e Médio Senegal, compravam também algum ouro e escravos. Outra rota, estabelecida o mais tardar desde o século VIII, ligava o Senegal aos oásis do Sul de Marrocos. Os mercadores de Sidjilmessa encaminhavam-se pelo país do anil, Dar'a (acesso privilegiado ao Gana), para a vertente meridional do Anti-Atlas, onde se encontravam com os seus congéneres vindos do país do açúcar e dos metais (Suz); neste ponto de encontro, favorecido pela existência de uma mina de prata, nasceu a cidade de Tamedelte. As trocas nesta vasta linha, grosso modo entre o cabo Jubi e Cabo Verde, são extremamente sortidas. Os mercadores do Norte (Suz, Dar'a, Sidjilmessa, entre outras) levam cobre, panos, bijuteria de vidro, conchas, pedras, cauris, perfumes, drogas e tâmaras com que compravam em Gana, Audaghoste e Tukrur ouro, escravos, goma, âmbar cinzento. O ouro era fornecido pelos mineiros de Bambuk, Gangaram e Buré. Os Berberes, os Sarakolés e os Tucurores andavam à "caça" ao negro ao sul do Senegal e a oeste do Falémé, vendendo os cativos em Marrocos e Tremecem. O âmbar cinzento traziam-no as caravanas do sal que vinham da costa, de Trarza ou Arguim. No litoral, entre Arauane e Tombouctou (que deve a sua fortuna às escalas das caravanas), extremamente arborizados, ao longo do mar até Arguim, forneciam a goma, tão apreciada pela indústria da seda do reino de Granada.
Entre o século III e o século VII há um elemento novo de capital importância no desenvolvimento de importantes fixações humanas de um lado e de outro do grande deserto do Sara: o surgimento e expansão das tribos nómadas, muito provavelmente pela domesticação do dromedário, elemento fundamental na deslocação destes povos. A expansão nómada vai trazer enormes implicações: as escassas comunidades agrupadas em volta dos oásis, negros e brancos que aí viviam pauperrimamente, passam a ficar dependentes, até em termos de liberdade, dessas tribos de longo raio de deslocamento. O próprio oásis vê a sua fisionomia modificada com a introdução dos palmares de tamareiras, árvore cuja reprodução só por intermédio do homem se assegura. Uma camada senhorial passa então a cobrir os negros dos oásis; e a fim de manter esta população negra de cultivadores semilivres (os harratin), firmou-se a importação ampla e regular de cativos da Guiné. É que, como se pode verificar, este movimento tem o seu grande caudal numa linha entre o Sul e o mediterrâneo sariano. Contudo, a dimensão destes contactos leva à busca de centros nas franjas do continente, junto ao mar, ainda grandemente povoadas nesta época. O litoral atlântico sariano revela, por outro lado, potencialidades: aí se encontram facilmente pastagens, pontos de água e peixe seco e sal (muitas vezes em barras) que se compra ou rouba aos pescadores azenegues. É, portanto, um domínio de predileção para os nómadas, que o trilham em todos os sentidos, em enormes percursos. Trata-se, portanto, de uma via de comunicação natural entre o Senegal e o Suz. O litoral atlântico representava uma linha comercial com ramificações para norte e para o interior, dinâmica e variada. O sal em barra é carregado por caravanas de Audaghoste que o vêm buscar propositadamente a Aulil, por exemplo, para o levar para os mercados negros. O mesmo comércio conhecia grande movimento através do rio Senegal. Do litoral, os cameleiros e os barqueiros levavam igualmente âmbar cinzento e goma, mercadorias posteriormente reexportadas para Marrocos. Outras caravanas transportam estes produtos diretamente de Trarza (região de Aulil) ou Arguim para o Suz. Nos pontos de partida, ao longo do Baixo e Médio Senegal, compravam também algum ouro e escravos. Outra rota, estabelecida o mais tardar desde o século VIII, ligava o Senegal aos oásis do Sul de Marrocos. Os mercadores de Sidjilmessa encaminhavam-se pelo país do anil, Dar'a (acesso privilegiado ao Gana), para a vertente meridional do Anti-Atlas, onde se encontravam com os seus congéneres vindos do país do açúcar e dos metais (Suz); neste ponto de encontro, favorecido pela existência de uma mina de prata, nasceu a cidade de Tamedelte. As trocas nesta vasta linha, grosso modo entre o cabo Jubi e Cabo Verde, são extremamente sortidas. Os mercadores do Norte (Suz, Dar'a, Sidjilmessa, entre outras) levam cobre, panos, bijuteria de vidro, conchas, pedras, cauris, perfumes, drogas e tâmaras com que compravam em Gana, Audaghoste e Tukrur ouro, escravos, goma, âmbar cinzento. O ouro era fornecido pelos mineiros de Bambuk, Gangaram e Buré. Os Berberes, os Sarakolés e os Tucurores andavam à "caça" ao negro ao sul do Senegal e a oeste do Falémé, vendendo os cativos em Marrocos e Tremecem. O âmbar cinzento traziam-no as caravanas do sal que vinham da costa, de Trarza ou Arguim. No litoral, entre Arauane e Tombouctou (que deve a sua fortuna às escalas das caravanas), extremamente arborizados, ao longo do mar até Arguim, forneciam a goma, tão apreciada pela indústria da seda do reino de Granada.
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Como referenciar
Impérios Comerciais da África Ocidental na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.ptartigos/$imperios-comerciais-da-africa-ocidental [visualizado em 2026-06-08 11:18:58].
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