Implantação Muçulmana na Índia (Sultanato de Deli)


Os primeiros ataques muçulmanos no subcontinente foram feitos por árabes na costa ocidental de Sind durante os séculos VII e VIII. Desde essa altura que existiam comunidades de comerciantes árabes na Índia. No entanto, o movimento significativo e permanente de muçulmanos no Norte da Índia data dos finais do século XII e foi levado a cargo pela dinastia turca que emergiu indiretamente das ruínas do califado Abássida. O caminho para a conquista foi preparado pelo sultão Mahmud de Ghazna, que conduziu mais de vinte ataques ao Norte da Índia entre 1001 e 1027 e estabeleceu no Punjab a província mais a oriente do seu grande mas curto império. Os ataques de Mahmud, militarmente bem sucedidos, tinham como objetivo primordial as pilhagens e não as conquistas.
O declínio dos Ghaznavidas após 1100 foi acentuado aquando do saque de Ghazna pelos rivais Shansabanis de Ghur em 1150-1151. Os Ghurias, que habitavam a região entre Ghazna e Herat, tomaram rapidamente o poder durante a última metade do século XII, em parte devido à alteração do equilíbrio do poder, que resultou no movimento ocidental não muçulmano dos turcos Karakitai na região dominada pelos turcos seljúcidas (que tinham sido o poder principal no Irão e parte do Afeganistão durante os últimos 50 anos).
Por volta de 1152, Ghazna foi novamente capturada pelo governador de Ghurid, Ala-ud-Din. Após a sua morte, o território de Ghurid foi partilhado pelos seus dois sobrinhos, Ghyas-ud-Din Muhammad e Muizz-ud-Din Muhammad ibn Sam, comummente chamado Muhammad de Ghur. Ghyas-ud-Din governou sobre Ghur a partir de Firuz-Kuh, enquanto Muhammad de Ghur se estabeleceu em Ghazna e começou a tentar a sua sorte na Índia para a expansão. As invasões Ghurias no Norte da Índia faziam parte de uma luta centro asiática. A maior parte do Norte da Índia estava já em contacto com Ghur através de um intenso comércio, particularmente de cavalos. Os guridas eram bem conhecidos devido à criação de cavalos. Ghur tinha reputação de fornecimento de escravos indianos e turcos aos mercados da Ásia Central. Os mercadores muçulmanos fixaram-se à volta de Sinde e do Punjab, em cidades que correspondem atualmente a Uttar Pradesh e Bihar. Os guridas também estavam familiarizados com a fabulosa riqueza da Índia ocidental e central. Como tal, seguiram inicialmente a rota meridional para a Índia através de Gumal, com a atenção em Gujarate.
Por volta de 1186, os guridas destruíram os vestígios do poder de Ghaznavid no Ocidente e detinham uma posição militar favorável para enfrentar os poderios rajputas no Norte da Índia. A conquista sobre os rajputas, porém, não foi fácil. A vitória abriu caminho para Deli, conquistada em 1193 mas deixada nas mãos de um rei hindu tributário.
Qutb-ud-Din, seu escravo e chefe militar, destituiu o chefe de Cauhan e estabeleceu o seu quartel em Deli em 1193, quando iniciou a campanha de expansão. Em breve tinha o controle de Benares (ou Varanasi, em 1194), Badun, Kannauj (1198-1199) e Kalinjar (1202).
Entretanto, um obscuro aventureiro, Ikhtiyar-ud-Din Muhammad Bakhtiyar Khalji, do exército gurida, conquista Nadia, a capital dos reis Sena de Bengala (1202). Em dois anos, Bakhtyar encetou numa campanha para conquistar o Tibete e pilhar o tesouro dos seus mosteiros budistas e também para obter o controlo do comércio da rota tradicional de Bengala, que levava às minas de ouro e prata na Ásia Central. A tentativa, contudo, mostrou-se desastrosa. Bakhtiyar conseguiu regressar a Bengala com algumas centenas de homens, e ali morreu em 1206.
A disponibilidade de um grande número de aventureiros militares da Ásia Central, que seguiriam importantes comandantes com reputação de sucesso, foi um dos fatores importantes na conquista rápida dos guridas da maior parte das cidades e forças da planície do Norte da Índia. Outros fatores foram também importantes. Talvez o mais importante tenha sido a tradição de uma organização e planeamento centralizados, que conduziu a campanhas militares de larga escala e à organização das forças ocupantes pós-campanhas. Enquanto que os rajputas viam provavelmente os guridas como uma força igual que competia pela supremacia no Norte da Índia, os guridas tinham em mente o modelo de estados hereditários do califado Abássida, o antigo império iraniano Sassânida e, particularmente, o vasto império centralizado de Mahmud de Ghazna.
Em breve, todavia, as possessões guridas estariam inseguras em todo o lado. Em 1205 o sultão Muhammad de Ghur sofreu uma severa derrota em Andkhvoy nas mãos de Khorezm-Shah. As notícias da derrota precipitaram uma rebelião por alguns seguidores do sultão no Punjab, e, apesar da rebelião ter sido acalmada, Muhammad de Ghur acabou por ser assassinado em Lahore em 1206. Os guridas na altura detinham a maior parte das cidades do Punjab, Sinde e de boa parte da planície do Ganges, mas a maior parte das terras fora das cidades estava ainda sujeita a algum tipo de poder de chefes hindus.
Quando Qutb-ud-Din Aibak assumiu a autoridade sobre as possessões guridas na Índia, deslocou-se dos arredores de Deli para Lahore. Aí organizou uma guarda contra o escravo de Muhammad de Ghur, Taj-ud-Din de Ghazna, que também reclamou a possessões indianas do seu dono. Em 1208 Qutb-ud-Din derrotou o seu rival e capturou Ghazna, mas em breve seria novamente expulso. Morreu em 1210 num acidente de polo, não tendo feito qualquer esforço para estender as suas conquistas indianas, mas conseguiu estabelecer a fundação de um estado indiano muçulmano.
Qutb-ud-Din foi o primeiro governante que veio a tornar-se conhecido, talvez incorretamente, como a dinastia do Escravo. A escravatura era, no entanto, uma parte integral do sistema político. Tal como era praticada nas políticas muçulmanas do Ocidente neste período, a instituição da escravatura fornecia um núcleo de militares devotados bem treinados para as figuras políticas eminentes.
Os sultões mantinham não só um controlo atento sobre o mercado de escravos, mas também nomeavam mercadores de escravos como agentes de estado. O sultão Shams-ud-Din Iltumish (reinou 1211-1236), genro e sucessor de Aibak, ele próprio um mameluco, enviou um mercador a Samarkanda e Tirmiz para comprar escravos jovens.
Durante o seu reinado Iltumish foi confrontado com três problemas: a defesa da sua fronteira ocidental, o controlo sobre os nobres muçulmanos na Índia e a subjugação de muitos chefes hindus que ainda exerciam um poder independente. O seu relativo sucesso nas três áreas dá-lhe o título de fundador do sultanato independente de Deli. O seu reinado iniciou-se com uma disputa facciosa em que ele e os seus apoiantes de Deli derrotaram e mataram o rival que reclamava o trono, filho de Qutb-ud-Din.
Os talentos políticos de Iltumish foram levados ao seu máximo, já que tentou desesperadamente evitar um confronto direto com os exércitos de Gengis Khan.
Em 1236, ano em que morreu Iltumish, o sultanato de Deli era claramente o maior e mais poderoso de um grande número de estados competidores do Norte da Índia. Devido à liderança de Iltumish, Deli já não estava subordinada a Ghazna, nem era meramente um posto avançado, mas tornou-se num orgulhoso centro de poder e cultura muçulmanos na Índia.
No início do seu reinado, o partido dos teólogos aproximou-se dele com o pretexto de os infiéis hindus serem forçados, de acordo com a lei islâmica, a aceitaram o Islão ou enfrentarem a morte. Em nome do sultão, o seu vizir disse aos divinos que isto era impraticável, já que os muçulmanos eram apenas como grãos de areia. Apesar da prescrição islâmica contra mulheres governantes, Iltumish nomeou a sua filha Raziyya sua sucessora. Ao recusar dar abrigo ao muçulmano Jalal ad-Din Mingburnu contra o pagão Gengis Khan, ele reclamou, de uma forma diplomática, que o poder turco em Deli não se envolveria mais nos poderes políticos dos países do oeste islâmico. Iltumish legitimou a sua ambição ao obter uma carta de investidura do califa.
Iltumish parece ter gozado do apoio dos seus nobres e conselheiros para a sua reivindicação de que a estrutura legal do Estado na Índia não deveria basear-se estritamente na lei islâmica. Gradualmente, um equilíbrio judicial entre as prescrições de Sarilha e as necessidades da época emerge como um elemento distintivo do poder turco. O eleitorado muçulmano, no entanto, não podia ajustar-se à ideia de ser governado por uma mulher, e Raziyya (governou entre 1236 e 1240) sucumbiu rapidamente aos poderosos nobres, que em tempos tinham sido escravos de Iltumish.
Porém, o novo Estado possuía energia interna suficiente para sobreviver a disputas facciosas internas durante dez anos após a morte de Iltumish, quando quatro dos filhos ou netos de Iltumish subiram ao trono e foram depostos.
A situação política alterou-se por volta de 1246, quando Ghiyas-ud-Din Balban ganhou poder suficiente para tomar uma posição de controlo na administração do mais jovem sultão, Nasir-ud-Din Mahmud (reinou entre 1246 e 1266). Balban, atuando inicialmente como delegado do sultão e mais tarde como sultão (reinou 1266-1287), foi a figura política mais importante da sua época. O seu reinado foi caracterizado por lutas quase contínuas para manter a posição de Deli contra o poder renascido dos chefes hindus (principalmente rajputas) e pela vigilância aos mongóis.
Durante os dez primeiros anos do reinado de Mahmud, as campanhas de Balban contra os chefes hindus eram apenas parcialmente bem sucedidas. Em 1266, quando assumiu o sultanato, a sua estratégia militar era comandar a partir da capital. Tendo estabelecido a segurança do seu território, Balban decidiu consolidar o seu poder nos governos provinciais em vez de embarcar em expedições aos territórios hindus.
Talvez o aspeto mais significativo do seu reinado tenha sido a elevação do poder do sultão, que tornou possível a reorganização e fortalecimento do exército, e a imposição de uma máquina administrativa mais severa.
Contudo, os sucessores imediatos de Balban mostraram-se incapazes de lidar com a administração ou os conflitos facciosos entre a antiga nobreza turca e as novas forças, lideradas pelos Khaljis; após a luta entre as duas fações, Jalal-ud-Din Firuz Khalji assumiu o sultanato em 1290. Durante o seu breve reinado (1290-1296), Jalal-ud-Din pôs termo a uma revolta de alguns oficiais de Balban, liderou uma expedição sem sucesso contra Ranthambhor e derrotou uma força mongol. Em 1296 foi assassinado pelo seu ambicioso sobrinho e sucessor, Ala-ud-Din Khalji.
Os Khaljis não foram reconhecidos pela nobreza mais antiga como originários e turcos puros (apesar de serem turcos), e a sua subida ao poder foi ajudada por intrusos impacientes, alguns deles muçulmanos indianos, que esperavam reforçar as suas posições se quebrassem o apoio dos seguidores de Balban.
Durante o reinado de Ala-ud-Din khalji (1296-1316), o sultanato assumiu de uma forma breve a posição de um império. De forma a atingir os seus objetivos de centralização e expansão, Ala-ud-Din necessitava de dinheiro, de uma nobreza razoavelmente leal e subserviente e de um exército eficiente sob o seu controlo.
A centralização e os altos impostos sobre a agricultura foram as principais características do seu reinado. O sultão e os seus nobres dependiam largamente, no século XIII, do tributo extorquido dos potentados subjugados e das áreas não pacificadas. O sultanato não tinha, no entanto, uma base económica estável; os nobres estavam frequentemente em débito de grandes somas de dinheiro aos prestamistas de Deli.
O resultado das reformas de Ala-ud-Din e o seu energético poder traduziu-se na rápida expansão do sultanato e numa maior união e direção efetivas que em qualquer outro período. Ala-ud-Din iniciou as suas intenções expansionistas com a subjugação de Gujarate em 1299. Seguidamente dirigiu-se para o Rajastão e depois capturou Ranthambor (1301), Chitor (1303) e Mandu (1305), acrescentando mais tarde Siwan (1308) e Jalor (1312). As campanhas no Rajastão abriram caminho para futuros ataques no Sul da Índia.
Estes ataques tinham como intenção, não a ocupação da terra, mas um reconhecimento formal da sua supremacia pelos reis hindus e a coleta de grandes montantes de tributos, que eram utilizados para financiar as suas atividades centralizadoras no Norte.
A expansão e centralização do sultanato de Khalji foi simultânea ao desenvolvimento económico e tecnológico em finais do século XIII e inícios do século XIV. No século XIII, Deli tornou-se uma das maiores cidades do mundo islâmico. As repetidas invasões mongóis decididamente afetaram as fortunas de algumas cidades do Noroeste, mas todo o período foi marcado por um florescimento da economia urbana e correspondeu à expansão da produção artesanal e do comércio.
Cinco anos após a morte de Ala-ud-Din (1316), os Khaljis perderam o seu poder. A disputa sucessória resultou no assassínio de Malik Kafur pelos guardas palacianos e na cegueira do filho de Ala-ud-Din. O sultanato é assumido pelo seu terceiro filho, Qutb-ud-Din Mubarak Shah (1316-1320). Qutb-ud-Din acabou com as revoltas em Gujarate e Devagiri e conduziu outro ataque em Telingana. Foi morto pelo seu general favorito. O hindu convertido Krushaw Khan, que tinha construído um suporte substancial entre um grupo de hindus fora da nobreza tradicional. A oposição ao governo de Krushaw foi imediata, sendo liderada por Ghazi Malik, que o destituiu e ascendeu ao trono (1320-1325). O seu reinado, apesar de curto, foi pleno de acontecimentos, destacando-se a defesa das suas fronteiras contra os mongóis.
Sucede ao trono Muhammad ibn Tughluq (1325-1351), filho do sultão anterior. O sultanato atingiu o seu ponto mais alto durante o seu reinado e o início do seu declínio. O período de 1296 a 1335 pode ser visto como uma contínua descentralização e expansão. Existiam alguns locais no subcontinente onde a autoridade do sultão podia ser seriamente questionada. Muhammad ibn Tughluq, porém, viu-se incapaz de manter a sua consolidação. Por volta de 1351, perdeu o Sul da Índia e boa parte do Norte estava em rebelião.
O herdeiro do trono de Muhammad ibn Tughluq, o seu primo Firuz Shah (1351-1388), fez várias campanhas mas foi incapaz de recuperar o sultanato de Bengala, e o Sind deixou de pagar o tributo durante o seu reinado. Firuz também não mostrou qualquer interesse em reconquistar as províncias meridionais.
Em 1388, quando Firuz Tughluq morreu, o declínio do sultanato era iminente. As disputas pela sucessão e as intrigas palacianas aceleraram o processo. Os filhos e netos de Firuz, apoiados por vários grupos de nobres, iniciaram a luta pelo trono, que rapidamente diminuiu a autoridade de Deli e deu oportunidades aos nobres muçulmanos e chefes hindus de afirmarem a sua autonomia. Em 1390 o governador de Guja declarou a sua independência e, entre 1391 e 1394, os importantes chefes rajputas de Etawah rebelaram-se e foram derrotados por quatro vezes. Em 1394 existiam dois sultões, ambos residindo em Deli. O resultado foi uma guerra civil de três anos. Entretanto, a desastrosa invasão de Timur (Tamerlão) piorou toda a situação.
Como referenciar: Implantação Muçulmana na Índia (Sultanato de Deli) in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-09-19 10:29:37]. Disponível na Internet: