Índia: de Akbar aos Grão-Mogóis

Akbar governou de 1556 a 1605 e foi proclamado imperador sob circunstâncias obscuras. Deli e Agra estavam ameaçadas por Hemu, o general hindu do governante de Sur, Adil Shah, e os governantes Mogóis eram levados de todas as partes do Norte da Índia. A posse de Akbar de uma fração do Punjab - o único território em seu poder - era precária e disputada por Sikandar Sur. Existia também deslealdade entre os seguidores de Akbar. A primeira tarefa de Akbar foi a de reconquistar o Império e consolidá-lo, através de uma máquina administrativa firme. Ele recebeu apoio ilimitado do regente Bayram Khan, até 1560. A vitória mogol em Panipat (novembro de 1556) e a consequente recuperação de Mankot, Gwalior, e Jaunpur afastou a ameaça afegã no Norte da Índia.
Até 1560, a administração de Akbar estava nas mãos de Bayram Khan. A regência de Bayram foi momentânea na história da Índia. No seu final o domínio Mogol abarcava: a totalidade do Punjab e Multam; o território de Deli; o atual Uttar Pradesh, incluindo Gwalior e a este, incluindo Jaunpur, e os presentes estados do Rajastão, Dholpur, Ajmer, Nagapur e Jaitaran.
No entanto, Akbar rapidamente se mostrou descontente quanto à tutela de Bayram Khan. Influenciado pela sua ama, Maham Anaga, e sua mãe, Hamida Banu Baygam, foi persuadido a dispensá-lo (1560). Sucederam-lhe quatro ministros de medíocre capacidade. Apesar de não ser ainda o senhor de si próprio, Akbar tomou alguns passos momentâneos durante este período. Conquistou Malwa (1561) e marchou rapidamente para Sarangpur para punir Adham Khan, o capitão responsável da expedição, acusado de conduta imprópria. Depois, nomeou Shams-ud-Din Muhammad Atgah Khan seu primeiro- ministro (novembro de 1561), e quase simultaneamente apoderou-se de Chunar, que sempre desafiou Humayun. Um dos eventos mais significativos de 1562 foi o casamento de Akbar com uma princesa rajputa, filha do rajá Bharmal de Aber, e a conquista de Merta no Rajastão. O casamento levou a uma sólida aliança entre Mogóis e Rajputas.
Em finais de junho de 1562, Akbar libertou-se completamente do partido do harém, liderado por Maham Anaga, o seu filho Adham Khan, e alguns cortesãos ambiciosos.
A partir de meados do século XVI, Akbar encabeçou então a grande tarefa de definir as suas políticas, que seriam implementadas pelos seus agentes. Embarcou numa política de conquista, estabelecendo o controlo sobre Jodhpur, Bhatha (atualmente Rewa), e o país Gakkhar entre os hindus e beas no Punjab. Seguidamente, conquistou a selvagem mas próspera região de Gondwana na moderna Madhya Pradesh. Durante este período aboliu a discriminação contra os hindus ao extinguir os impostos de peregrinação, em 1563, e o odiado jizya (imposto aplicado aos não muçulmanos) em 1564.
O Rajastão ocupava um lugar proeminente no plano de conquista de Akbar - enquanto não estabelecesse a sua soberania naquela região, não seria detentor do título de soberano no Norte da Índia. O Rajastão também confinava com Gujarate, um centro de comércio com os países da Ásia ocidental e a Europa. Em 1567, Akbar invadiu Chitor, a capital de Mewar; em fevereiro de 1568 o forte caiu nas suas mãos. Chitor foi constituído distrito, e Asaf Khan foi nomeado seu governador. Mas a metade ocidental de Mewar permaneceu na possessão de Rana Udai Singh. Mais tarde, Rana Pratap, após ter sido derrotado pelos Mogóis em Haldighat (1576), continuou as suas incursões até à sua morte (1597). A queda de Chitor e depois de Ranthambor (1569) puseram quase todo o Rajastão sob a soberania de Akbar.
O objetivo seguinte de Akbar foi a conquista de Gujarate e Bengala, que se tinham ligado ao Indostão com o comércio da Ásia, África e Europa. Gujarate era um paraíso para os nobres mogóis refratários, e em Bengala e Bihar os afegãos, sob Daud Karrani, ainda eram uma séria ameaça. Akbar conquistou Gujarate na sua segunda tentativa em 1573 e celebrou o triunfo com a construção de uma majestosa porta de vitória (buland darwaza) e a sua nova capital, Fatehpur Sikri. A conquista de Gujarate alargou as fronteiras do Império Mogol até ao mar. Os encontros de Akbar com os portugueses despertaram a sua curiosidade acerca da sua cultura e religião. Akbar não mostrou muito interesse sobre o que se estava a passar na Europa, mas apreciou a importância política e comercial de trazer outra saída para o comércio internacional do seu Império - nomeadamente Bengala - sob o seu forte controlo.
Após a morte de Hakim e a ameaça de uma invasão usbeque, Akbar pôs Cabul sob o seu controlo direto. Para demonstrar a sua força, o exército mogol exibiu-se em Caxemira, Baluquistão, Sinde e distritos tribais da região. Em 1595, antes do seu regresso, Akbar tomou Kandahar aos Safávidas, ficando assim definidas as fronteiras do noroeste.
À morte de Akbar, em 1605, o Império Mogol estendia-se por toda a área norte de Godavari, com exceção de Gondwana, no centro da Índia, e Assam, no Nordeste.
Mais do que as vitórias militares Akbar, é lembrado pela sua administração e política coerente, que deu ao regime mogol solidez e firmeza durante cerca de 150 anos.
O governo central de Akbar consistia em quatro departamentos, cada um presidido por um ministro: o primeiro-ministro; o ministro das finanças; o pagador-geral e o chefe da justiça e da religião. Estes eram nomeados, promovidos ou demitidos pelo imperador, e os seus direitos estavam bem definidos.
O Império estava dividido em 15 províncias cuja área e rendimentos não eram uniformes. Em cada província existia um governador, um oficial de finanças, um comandante militar, um administrador religioso, um juiz e agentes que forneciam informação ao governo central. A separação de poderes entre os vários oficiais era um princípio operativo significativo da administração imperial.
Nas três décadas do reinado de Akbar, a elite imperial cresceu desmesuradamente. Dado que os nobres centro-asiáticos tinham sido educados, de uma maneira geral, na tradição turco-mongol de partilha do poder com a realeza - um princípio incompatível com a ambição de Akbar estruturar o centralismo mogol à sua volta - o objetivo principal do imperador era reduzir a sua força e influência. O imperador encorajou novos elementos a juntarem-se ao seu serviço, e os iranianos acabaram por formar um importante bloco na nobreza mogol. Mais significativo foi o recrutamento de lideres hindus rajputas para a nobreza mogol. Este foi o maior passo, ainda que não fosse completamente novo na história indo-islâmica, levando a um padrão de relacionamento entre a autocracia mogol e despotismo local. Os chefes rajputas mantiveram o controlo sobre as suas possessões ancestrais e, adicionalmente, como retribuição dos seus serviços, receberam watans (terras atribuídas fora das suas terras de origem) no Império. Akbar obteve assim uma grande base para o poder mogol entre as centenas e milhares de guerreiros rajputas, que controlavam grandes e pequenas parcelas de terra no campo por todo o seu Império.
Um dos traços mais marcantes do sistema mogol de Akbar foi a sua administração das receitas, largamente desenvolvida sob a supervisão do seu famoso ministro hindu Todar Mal. Os esforços de Akbar para desenvolver um plano de receitas, proveitoso para ambos - camponeses e Estado - levou duas décadas a ser implementado.
Todas as questões económicas estavam debaixo da jurisdição do wazir, que era assistido por três ministros.
Akbar reformou a moeda mogol tornando-a uma das mais conhecidas do seu tempo. A pretensão de Akbar era consolidar uma moeda uniforme em todo o seu Império.
A sociedade mogol era predominantemente não muçulmana. Como tal, Akbar tinha não só que manter o seu status como governante muçulmano, mas também ser suficientemente liberal com o suporte ativo dos não muçulmanos. Para esse fim, teve que lidar com os teólogos. Akbar convenceu-se que existia verdade em todas as religiões, mas que nenhuma delas possuía a verdade suprema. Assim sendo, aboliu o islão como religião do Estado e criou a sua própria religião.
No século XVII, o Império Mogol prosseguiu a sua conquista e expansão territorial, com um aumento dramático dos números, recursos e responsabilidades dos nobres mogóis. Houve também tentativas para reduzir o controlo imperial sobre a sociedade local e a economia. O século testemunhou o governo dos denominados três grão-mogóis: Jahanguir (governou de 1605 a 1627), Shah Jahan (governou de 1628 a 1658) e Aurengzeb (governou de 1658 a 1707). Os reinados de Jahangir e Aurengzeb foram notórios pela estabilidade e viva atividade política, excelente pintura e magnífica arquitetura. Com Aurengzeb, o Império atingiu o seu auge em termos de amplitude geográfica; o período, no entanto, evidenciava já alguns sintomas do declínio do Império Mogol.
A unificação política, o estabelecimento da lei e a paz nas extensas áreas do Império, aliadas ao intenso comércio e ao ostentoso estilo de vida das elites mogóis, encorajaram a emergência de grandes centros de comércio e artesanato.
A maior conquista política de Jahangir foi a cessação do conflito mogol-mewar, seguindo-se três campanhas consecutivas e a sua chegada a Ajmer, em 1613.
Nesta altura, os Maabáratas emergem como força no Decã. Jahangir apercebeu-se da sua importância e encoraja-os a porem-se do seu lado (1615).
O reinado de Shah Jaham foi marcado por algumas rebeliões, a primeira das quais foi a de Khan Jahan Lodi, governador de Decã, que foi chamado à corte após ter falhado a recuperação de Balaghat a Ahmadnagar.
Os eventos no fim do reinado de Shah Jahan não eram auspiciosos para o futuro do Império. O imperador adoeceu em setembro de 1657, e espalharam-se rumores da sua morte. No seu testamento deixou o Império ao seu filho mais velho, Dara. Os seus outros filhos, Shuja, Aurangzeb e Murad, que eram adultos e governadores de províncias, decidiram contestar a sucessão do trono. Da guerra de sucessão em 1657-1659, Aurangzeb saiu vitorioso. Seguidamente, prendeu o seu pai no forte de Agra e auto proclamou-se imperador.
Sob Aurangzeb (1658-1707), o Império experimentou ainda maior crescimento mas também manifestou sinais de fraqueza. Durante mais de uma década, Aurangzeb parecia ter tudo sob controlo.
Aurangzeb inverteu deliberadamente a política dos seus predecessores em relação aos assuntos não muçulmanos, ao tentar reforçar os princípios e as práticas do Estado islâmico. Repôs os jizya aos não muçulmanos e sobrecarregou-os com impedimentos sociais, religiosos e legais. Proibiu-lhes a construção de novos templos e a reparação dos antigos. Seguidamente, deu ordens para se demolirem todas as escolas e templos hindus e para se acabar com as práticas religiosas e educativas.
O novo imperador, Bahadur Shah I (1707-12), seguiu uma política de compromisso, perdoando todos os nobres que apoiaram os seus grandes rivais e garantiu-lhes cargos apropriados. Nunca aboliu os jizya, mas o esforço para cobrar o imposto mostrou-se ineficaz. Não houve destruição de templos neste reinado. Inicialmente tentou obter um maior controlo sobre os rajputas de Amber (mais tarde Jaipur) e Jodhpur, mas quando a sua pretensão enfrentou uma forte resistência, constatou a necessidade de estabilidade.
Bahadur Shah tentou fazer a paz com o guru sikh Gobind Singh. Mas quando, após a morte do Guru, os Siks se revoltaram no Punjab, sob a liderança de Banda Bahadur, o imperador decidiu tomar fortes medidas e ele próprio liderou a campanha contra os rebeldes. Praticamente todo o território, entre os Sutlej Jamuna, atingindo a vizinhança de Deli, ficou sob o controlo sikh.
Quando Bahadur Shah morreu (1712), a situação das finanças encontrava-se ainda mais deteriorada como resultado das suas imprudentes concessões aos jagirs e das promoções. Durante o seu reinado, as reservas do tesouro real estavam esgotadas.
Jahandar Shah (1712-13) foi um príncipe fraco e degenerado, e Zulfiqar Khan assumiu a direção executiva do Império com poderes sem precedentes para um wazir. Zulfiqar acreditava que era necessário manter relações amistosas com os rajputas e os maaháratas, e conciliar os chefes hindus de forma a salvar o Império. Alterou as políticas de Aurangzeb. Os odiados jizya foram abolidos. Só entre os siks foi mantida a antiga política de supressão. O seu objetivo era conciliar todos aqueles que estavam dispostos a partilhar o poder no sistema institucional mogol. Zulfiqar Khan tentou também fazer reformas na economia mas sem sucesso.
Farrukh-syar (1713-1719) deveu a sua vitória aos governantes anteriores e aos irmãos Sayyid, Abdullah Khan e Husayn Ali Khan Baraha. O jizya e outros impostos foram imediatamente abolidos. Os irmãos suprimiram finalmente a revolta sik e tentaram conciliar os rajputas, os maaháratas e os jats.
Na altura que Muhammad Shah (1719-48) subiu ao poder, a natureza das relações entre imperador e nobreza tinha-se alterado quase completamente. Os nobres, à frente dos departamentos oficiais, mantinham uma supervisão de todo o Império, ainda que estivessem mais preocupados com as regiões onde tinham os seus jagirs.
A invasão iraniana paralisou Muhammad Shah e a sua corte. A perda de Cabul abriu o Império à ameaça de invasões do noroeste; uma linha vital de defesa tinha desaparecido.
Muhammad Shad morreu em 1748, e nos anos seguintes quatro príncipes ascenderam ao trono mogol. Este período foi marcado por lutas entre maabáratas e afegãos pelo controlo de Deli e Norte de Índia. Os jats e os rajputas, que tinham emergido como governantes de uma dimensão considerável do Norte da Índia, preferiram manter-se neutros.
Com o declínio da autoridade central mogol, o período entre 1707 e 1761 testemunhou o ressurgimento da identidade regional, o pilar da descentralização política e económica. Ao mesmo tempo, tanto o comércio inter-regional com intra-regional das matérias-primas locais e artefactos criou fortes laços de interdependência económica independentemente das relações políticas e militares. Bengala, Bihar e Avadh, no Norte da Índia, estavam entre as regiões onde estes desenvolvimentos foram mais evidentes.
Os estados que surgiram na Índia durante a fase de declínio mongol e o século seguinte (aproximadamente 1700 a 1850) variaram bastante em termos de recursos, longevidade e características essenciais.
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