Influência Árabe na Evolução da Língua Nacional

No Português subsistem inúmeros vestígios da língua árabe mas, apesar desta nítida influência, é bastante complicado contabilizar esses indícios, porque não existe uma listagem completa e consensual dos arabismos na língua portuguesa, nem mesmo um registo daqueles que desapareceram.
Os Árabes chegaram à Península Ibérica no início do século VIII d. C., trazendo consigo a segunda (e final) componente do Português. O estudo dessa importante influência é bastante complexo, porque esta também se verificou em Espanha, no Norte de África e no Oriente. É tema que não se limita apenas ao léxico; dever-se-á alargar à toponímia e à antroponímia. É preciso recordar e fazer um estudo comparado, também com os topónimos arábicos da África e do Oriente com uso no Português.
Poder-se-á dizer, em parte, que estas influências aparecem em manifestações da vida quotidiana portuguesa medieval, entre os séculos IX e XIV e podiam ser encontrados também tanto na administração e na economia, como no domínio espiritual. Em certos casos surgem igualmente em determinados mesteres e ocupações tais como nos postos militares e civis, em impostos, pesos e medidas. Também nas artes e ofícios aparecem estes indícios, tal como nas ciências, com especial incidência nas ciências naturais, cultivadas e desenvolvidas pelos muçulmanos. Estes vocábulos entravam nas casas das pessoas, nas instituições, nas oficinas. Segundo os textos esta influência tornou-se mais progressiva quando a cristandade lutava com a mourama, devido ao contacto existente entre as duas forças em conflito, e dos moçárabes que iam ficando nas terras reconquistadas pelos cavaleiros cristãos.
O vocabulário recebido em Marrocos e no Oriente, em número menos significativo, talvez seja mais palpável.
A conquista muçulmana foi mais triunfante no território a sul do Douro, onde nunca houve uma forte tradição do galaico-português, enquanto o moçárabe evoluía isolado, e em diferentes circunstâncias, devendo distinguir-se de outros dialetos da mesma família.
Este estudo da relação entre a língua árabe e a língua portuguesa revela-nos que de entre o léxico de origem árabe predominam os substantivos, seguidos dos adjetivos. São muito escassos os advérbios e praticamente inexistentes os verbos, talvez pela diferença entre as duas línguas ser muito acentuada.
Além do léxico não parece haver uma relação fonética ou morfológica. Nem mesmo da sintaxe. A utilização de antroponómios árabes na língua portuguesa é antiga, mas quase inexpressiva; ao contrário do que se verifica na toponímia, onde abundam termos de origem muçulmana, sobretudo nas regiões meridionais, especialmente no Algarve, onde ainda nos nossos dias se podem encontrar provas que confirmam esta afirmação.
Deve-se salientar que o Árabe também agiu no Português como elemento perturbador, relativamente à evolução fonética de vocábulos pré-islâmicos da Península como por exemplo Tejo e Beja.
Atualmente o número de palavras árabes na língua portuguesa é diminuto, pois a influência desta língua deu-se exclusivamente nos substantivos, e não na estrutura, que permaneceu latina. Com o declínio da influência muçulmana, esta foi ultrapassada por influências francesas, italianas e inglesas, levando ao desaparecimento de muitos desses vocábulos. No Português medievo era muito mais forte a sua presença, comparativamente à língua portuguesa moderna.
Parece comprovada a teoria defensora do conhecimento da língua arábica desde o início da formação da nação. Este conhecimento foi fomentado por via dos contactos estabelecidos entre os portugueses e as populações muçulmanas da Hispânia, de Marrocos e do Oriente. Numa segunda fase este relacionamento foi retomado, em particular com Marrocos, e sobretudo devido ao progresso dos conhecimentos científicos que conduziram ao ensino desta língua no nosso país.
O ensino da língua arábica foi simplificado por um acontecimento fortuito. Um muçulmano de Damasco que se fixou no nosso país, convertido ao cristianismo, tomou em mãos a tarefa de lecionar árabe, dando início a uma promissora carreira.
O jovem mouro professou na Ordem Terceira de Penitência de S. Francisco, no convento de Jesus em Lisboa, onde recebeu o nome de Frei João de Sousa (falecido a 27 de janeiro de 1812).
Este religioso ascendeu aos cargos de intérprete real, e era funcionário do Ministério da Marinha tendo estado em missão oficial na corte de Marrocos.
Os frades José de Santo António Moura e Fr. Manuel Rebelo da Silva, seus discípulos, deram continuidade ao ensino da sua língua nativa. No ano de 1844 o ensino do Árabe transitou para o Liceu de Lisboa, onde esta cadeira foi lecionada pelo já referido Fr. Manuel (então enclaustrado), por António Caetano Pereira e Augusto Soromenho; em 1869, a cadeira foi extinta, só voltando a aparecer no século seguinte, em 1914, na Faculdade de Letras de Lisboa, pelo desenvolvimento deste estudo no estrangeiro e pelo esforço de David Lopes (1867-1942), um homem devotado à História, à Filologia e ao ensino deixando como seus discípulos Joaquim Figanier, José G. Garcia Domingues e José Pedro Machado, tradutor para português do Corão. Posteriormente, esta cadeira passou a constar do currículo do Instituto Superior da Marinha.
Atualmente o número de palavras árabes no Português ronda as seis centenas.
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