Janita Salomé

Cantor e compositor português, de nome completo João Eduardo Salomé Vieira, nasceu a 17 de maio de 1947. É o filho mais novo de um cantador de fado de Coimbra nos anos 30, dono de uma loja de relógios da vila do Redondo, que incutiu o gosto pela música nos filhos: Vitorino, Carlos Manuel, Zé e o próprio João, que cedo ficaria conhecido por Janita.
Em 1963 estreou-se como baterista e vocalista dos Planície, um grupo de rock pelo qual passaram alguns dos seus irmãos. Em 1965 foi para Lisboa, onde trabalhou durante dois anos como funcionário do Tribunal da Boa Hora, após os quais partiu como militar para a guerra colonial em Moçambique. Mais tarde regressou à sua terra natal, o Redondo, onde prosseguiu a atividade musical integrando um novo grupo de baile, os Vagabundos do Ritmo, que tocavam música romântica, The Bee Gees e Beatles.
A Revolução de 25 de abril de 1974 mudou a vida de Janita Salomé. Durante dois anos participou, como acompanhante de José Afonso, em numerosos espetáculos, comícios e sessões de esclarecimento. O encontro com o autor de "Grândola, Vila Morena" mudou radicalmente a vida do cantor e levou-o a dedicar-se à música popular. Participou no álbum Semear Salsa Ao Reguinho, primeiro álbum do seu irmão Vitorino, em cujos futuros discos continuou a colaborar. Em 1978 fundou com os seus irmãos o Grupo de Cantares do Redondo, com o qual gravou o registo etnográfico O Canto da Terra.
O ano de 1980 marcou uma segunda revolução na sua vida. Mudou-se para Lisboa e gravou o seu primeiro disco, intitulado Melro, que incluiu duas partes distintas: uma dedicada ao canto alentejano e outra ao fado de Coimbra. Lançado em plena explosão do rock português, o álbum passou despercebido ao público. No mesmo ano integrou o grupo de acompanhamento de José Afonso, do qual faziam parte nomes como Júlio Pereira e Guilherme Inês. Fez digressões ao estrangeiro com Pedro Caldeira Cabral e Vitorino e participou nos álbuns de Júlio Pereira, Cavaquinho e Braguesa.
Em 1981, assistiu, em Paris, a um espetáculo de um grupo de Marrocos que o deixou deslumbrado. No ano seguinte efetuou a primeira viagem ao Norte de África a que se seguiriam mais duas numa busca por parte do cantor da ponte entre a tradição do canto alentejano e a música árabe.
Em 1983 gravou Cantar Ao Sol, o seu segundo álbum, que refletiu as influências que recebeu da música árabe. Produzido por João Gil (na altura músico dos Trovante), o disco incluiu temas como "Quando Chegou a Lua Cheia", "Tardes de Casablanca", "Não É Fácil o Amor", "Na Palestina" (um instrumental) e "Saias" (tema tradicional da Beira Baixa) e foi considerado um dos melhores trabalhos da música popular portuguesa naquele ano. Foi galardoado com os prémios Se7e de Ouro e na categoria de revelação pelas revistas Música & Som e Nova Gente.
Em 1985 lançou Lavrar Em Teu Peito, álbum que explorou os terrenos abertos pelo seu antecessor. Fizeram parte deste trabalho os temas "Mulher da Erva" (de José Afonso) e "E Alegre Se Fez Triste" (de Adriano Correia de Oliveira). Janita recuperou, neste álbum, versos de poetas árabes medievais da Península como Al-Mu-Tamid. O disco incluiu ainda o tema "A Esfinge Gorda", canção feita para um espetáculo de Mário Viegas.
1987 marcou o lançamento do seu quarto álbum, Olho de Fogo, que lhe valeu o Prémio Nova Gente de Melhor Intérprete Masculino de Música Ligeira. Este álbum incluiu temas como "Os Amantes" e "Senhora do Almortão. No mesmo ano participou no espetáculo Printemps de Bourges, numa noite ibérica. Deu quatro concertos em Madrid. Um conflito com a editora levou-o a uma interrupção de quatro anos no que toca à gravação de discos. Entre 1987 e 1991 desenvolveu atividade de ator no grupo de teatro A Barraca. Musicou a peça Margarida do Monte, de Marcelino Mesquita, cenografada pelo catalão António Belard, que seria posteriormente apresentada no Festival de Teatro Del Mediterrâneo. Em 1989 tocou no Café De La Danse, em Paris, numa semana da cultura portuguesa. Com o irmão Vitorino e Pedro Caldeira Cabral fez espetáculos em vários países europeus e no Canadá.
Em 1991 gravou o álbum A Cantar À Lua, que marcou um regresso ao fado de Coimbra. Acompanhado de António Brojo e António Portugal, dois guitarristas históricos de Coimbra, Janita interpretou, neste álbum, clássicos de Edmundo Bettencourt, Fortunato da Fonseca e Francisco e António Menano. Neste mesmo ano, saiu o álbum de estreia do projeto Lua Extravagante, onde Janita surgiu ao lado dos irmãos Carlos e Vitorino e de Filipa Pais. O grupo deu um concerto em Lovaina, Bélgica, no Conservatório de Música daquela cidade, o qual foi transmitido em direto pela Rádio 1.
Em 1992, participou num espetáculo na Expo 92 em Sevilha, a convite da comissão portuguesa, mas por sugestão dos organizadores espanhóis.
Em 1994, lançou Janita Raiano, o quinto álbum de originais que marcou um regresso à pesquisa das raízes da música portuguesa, procurando desta vez a aproximação do canto do Alentejo à música do Sul de Espanha. Em 1995 recebeu o prémio Blitz-94 para a Melhor Voz Masculina Nacional.
Em 2000 integrou, com o seu irmão Vitorino, o espetáculo de coros alentejanos que inaugurou a Exposição Mundial de Hanover.
Neste mesmo ano liderou as Vozes do Sul, projeto que procurou celebrar a tradição do canto polifónico alentejano. O álbum homónimo contou com as participações vocais dos Grupos Corais e Etnográficos da Casa do Povo de Serpa, Cantadores do Redondo, Cantadeiras de Castro Verde, os Ceifeiros de Pias, Catarina, Marta (filhas de Janita) e Patrícia Salomé (sobrinha) e ainda de Filipa Pais e Bárbara Lagido, e com os créditos de instrumentistas como Carlos Guerreiro (ligado aos Gaiteiros de Lisboa) e os membros dos Corvos.
Em 2003, o cantor retomou a sua carreira individual, editando o disco Tão Pouco e Tanto. O longa-duração mereceu excelentes críticas, reafirmando Janita Salomé como um dos nomes incontornáveis da música tradicional portuguesa, especialmente os sons da região alentejana, dos quais é um dos mais dignos embaixadores.
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