João

"À parte o cabelo ralo e o olhar suave, todo ele, pele e gestos, tinha um aspeto terra a terra: dedos ossudos, pulsos chatos, unhas rasas, cor e modos de camponês - melhor, de descendente de camponês" (p. 55). Com cerca de quarenta anos, João, um industrial, que, após a morte do pai, se achou "de um dia para o outro com uma fábrica, prédios de rendimento, e não sei quantos hectares de terra" (p. 110), representa, em 1957, uma geração que tendo, em 1945, "aderido aos ideais progressivos e mesmo revolucionários [...] troca a sua visão humanitária e a sua militância política por um ceticismo diletante [...] com mais ou menos remorso. Com mais ou menos cinismo. Com mais ou menos lucidez sobre o próprio descalabro." (Cf. DIONÍSIO, Mário - "Uma Pequena Grande História", in PIRES, José Cardoso - O Anjo Ancorado, 8.ª edição, Lisboa, Dom Quixote, 1990, p. 42). Alheado da realidade social que o cerca, na companhia de Guida, confortável no seu Talbot Lago descapotável que atravessa como "uma barca radiosa" a miserável aldeia de S. Romão, a atividade de João ao longo de toda a narrativa resume-se à pesca submarina, matando por desporto e sem luta, um mero adormecido. Como "um acomodado brilhante que navega na crista da vaga", João ilustra, assim, o anjo que dá título ao romance, definitivamente ancorado na vida.
Como referenciar: João in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-09-23 04:18:32]. Disponível na Internet: