literatura infantil

Termo que designa uma literatura criada especificamente para as crianças. Embora a definição de traços que definam os limites entre literatura infantil e literatura de um modo geral seja arbitrária, são características usuais da literatura infantil o privilégio do estímulo, pelo livro, de impressões sensoriais, com um investimento nos valores fónicos e visuais (a que se acrescentaram recentemente os estímulos tácteis e olfativos) ou o recurso a personagens que encarnam o maravilhoso, nomeadamente as personagens animais ou dotadas de poderes sobrenaturais.

Dentro das formas de literatura infantil incluem-se os subgéneros teatro infantil (cf. obra dramática de autores como António Manuel Couto Viana, entre outros), poesia infantil (acrescida importância concedida às recolhas de lengalengas, adivinhas, canções) e ficção infantil.

Inicialmente, a literatura infantil reunia tanto excertos de autores consagrados em antologias organizadas com um fim pedagógico, como histórias simples, derivadas da fábula, destinadas à educação moral das crianças. Como alerta Esther de Lemos, nesse momento, "Não se pensa propriamente em criar para a infância: tudo se faz ainda em ordem a um ideal de homem que se pretende realizar desde os primeiros anos. A criança ainda não é vista como um ser à parte, com problemas e interesses que diferem qualitativa e não quantitativamente dos adultos" (Dicionário de Literatura, org., de Jacinto Prado Coelho, 4.a ed., Porto, 1989).

A partir do século XIX surgem as primeiras produções concebidas para a leitura das crianças, como "Para as crianças", em Campo de Flores, de João de Deus, a que se seguirão os Contos para a Infância (1877), de Guerra Junqueiro, História de Jesus para as Criancinhas Lerem, de Gomes Leal (1883), ou os contos de Eça de Queirós, e a que se acrescentou a edição de publicações que tinham um público essencialmente juvenil.

O movimento de descoberta de uma literatura infantil enriqueceu-se paralelamente à redescoberta romântica dos romanceiros e, consequentemente, de antigas mitologias populares, marcando a entrada decisiva do maravilhoso na narrativa infantil, ao mesmo tempo que a tradução da obra da Condessa de Ségur ou dos contos de Andersen vocaciona cada vez mais uma escrita infantil que, embora não isenta de moralidade, se orienta cada vez mais para o divertimento e para ir ao encontro de um imaginário infantil.

É nesse sentido que se enceta no início do século XX uma produção literária vocacionada para a infância, pela mão de autores como Ana de Castro Osório, Virgínia de Castro e Almeida ou Maria Sofia de Santo Tirso. Ao longo do século XX, vários autores assumem a dupla faceta de autores para adultos com incursões de grande qualidade na escrita para crianças, como Raul Brandão (Portugal Pequenino) e Aquilino Ribeiro (O Romance da Raposa), ao mesmo tempo que outros autores evoluem da literatura para adultos para se dedicarem privilegiadamente à literatura infantil, como Luísa Dacosta, Maria Alberta Menéres ou Esther de Lemos.

Existem ainda situações onde a fronteira literatura para adulto/literatura infantil se dilui por efeito de uma escrita substancialmente alegorizante, como é o caso de José Gomes Ferreira (cf. Aventuras de João Sem Medo).

Na evolução da literatura infantil deve ainda considerar-se o peso de que se reveste cada vez mais o paratexto visual, a ponto de se sobrepor ao texto escrito, tendência que confluiu na divulgação da banda desenhada.

A 2 de abril, comemora-se o Dia Internacional do Livro Infantil.
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