Livro de Bordo

Para David Mourão-Ferreira (cf. Vinte Poetas Contemporâneos, 2.a ed., Lisboa, 1980, p. 42), Livro de Bordo consubstancia, na evolução da obra de António de Sousa, um momento de amadurecimento da sua vocação como poeta da modernidade. Organizado em três cadernos, o Livro de Bordo anuncia, desde o título, o recurso à imagética marítima na metaforização do itinerário pessoal de um sujeito poético que se define como "marinheiro dum céu que me perdera". "Livro de Bordo" da viagem interior, registará as contradições de um eterno exilado na terra, arrastando "num chão de pedra" "uns cotos de asas", atento ao vento que fala da sua frota perdida, do mar de saudade, da "ilha Ignota" que um dia encontrou. Ao longo do Livro de Bordo são percetíveis as influências de Pessoa ipse, na reflexão sobre o logro do dizer ("De outras palavras, por dentro, as palavras são vestido. / O sonho fica no centro: / nunca aparece despido.") e sobre a despersonalização de um eu que se sente "um novelo de vidas"; bem como de António Nobre - a cuja poesia alude quase diretamente ao referir-se à "purinha/menina-mulher!" -, como o autor de refugiando-se num egotismo que elege na infância o tempo que precede a dilaceração do sujeito poético: "Macia, a mão do destino/ foi de flores, até um dia. / Eu, sempre moço e menino, / sem saber que me bebia / aquela doce loucura/ de quem de si não procura / senão ser. // Depois, / a vida e eu fomos dois. // E, sem querer, / morro de ter que a viver!". Um magistério menos esperado é o de Eugénio de Castro, a quem dedica uma «Arte Poética», onde invoca o "Coral das rimas, lúcidas e belas, / fiéis ao jogo e, todavia, esquivas", com que debrua a solidão e afia os "sonhos ao momento", e que se concretiza num forte investimento rítmico, obtido por recurso a paralelismos, anáforas e aliterações.
Como referenciar: Livro de Bordo in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-10-20 04:18:09]. Disponível na Internet: