Livro de Horas de D. Manuel

O Livro de Horas de D. Manuel, executado na primeira metade do século XVI, é um dos mais interessantes manuscritos iluminados jamais realizados em Portugal.
Tal como se encontra referido no princípio do seu texto, este livro, encomendado pelo rei D. Manuel I, foi iniciado em 1517 e a sua execução ter-se-á prolongado por duas décadas. Foi terminado durante o reinado de D. João III.
Apesar de ser possível a identificação de três ou quatro autorias para as iluminuras contidas neste manuscrito, a mais significativa contribuição deve-se muito provavelmente a António de Holanda, um pintor de origem flamenga que se tinha instalado em Portugal, e fora responsável pelo relançamento técnico e artístico da oficina real. Aceita-se, desta forma, que o principal autor do livro terá sido o mesmo artista que realizou, alguns anos antes (aproxidamente em 1510), o Breviário de D. Leonor, mulher de D. Manuel. Tal como se verificou ao nível da pintura, a iluminura, que tinha conhecido um significativo incremento em Portugal durante o século XV, atingiu um elevado nível de maturidade técnica e estética durante o reinado de D. Manuel, para o qual muito contribuiu a importação de grande número de obras de arte. Esta importação de pinturas ou de manuscritos, geralmente provenientes da Flandres (um dos centros europeus com quem Portugal mantinha as mais intensas relações comerciais e culturais), era acompanhada pela vinda de artistas que orientavam as oficinas nacionais, introduzindo ou solidificando o gosto flamengo. Entre estes contavam-se os pintores António de Holanda, Olivier de Gand e Cristovão de Utrecht.
A origem flamenga de António de Holanda, assim como a enorme influência artística de algumas cidades nórdicas, como Gant e Bruges, explicam o carácter nórdico de grande parte das pinturas do "Livro de Horas de D. Manuel". Esta obra é caracterizada por uma gramática que sintetiza a tradição gótica com as experiências modernas, mais naturalistas e realistas que constituem o renascimento setentrional, tornando muito dificil a separação formal entre estilo gótico, manuelino e renascentista.
As páginas iluminadas podiam conter ilustrações associadas a texto manuscrito ou apresentar exclusivamente imagens. Estruturadas e organizadas por grelhas geométricas (em forma de cintas douradas) que definiam distintos campos pictóricos, as imagens organizavam-se em sucessão, através duma lógica narrativa associada às descrições contidas no texto.
De entre as folhas mais interessantes deste livro contam-se as que descrevem o funeral de D. Manuel e que, através de cuidadas representações perspéticas e dum refinado modelado e cromatismo, apresentam um conjunto de paisagens urbanas de Lisboa, cujas estruturas arquitetónicas cruzam elementos manuelinos e renascentistas.
Para além do valor artístico, esta obra de arte assume um inegável interesse histórico-documental pela forma como retrata e descreve muitas situações da vida do tempo.
Concluído durante o reinado de D. João III, num período de plena ascensão da imprensa, esta obra representa simultaneamente o apogeu e epílogo do livro manuscrito iluminado em Portugal.
Como referenciar: Livro de Horas de D. Manuel in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-10-20 18:23:20]. Disponível na Internet: