Luis Anriques
São praticamente nulos os dados biográficos conhecidos sobre este poeta do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende que se destaca pela variedade de géneros e temas cultivados, desde o pranto ao louvor religioso, ou à expressão amorosa e jocosa.
Parece, no entanto, depreender-se dos textos de encómio a figuras reais e senhoriais uma posição próxima do que seria um poeta oficial de corte, colado aos vetores ideológicos do reinado de D. Manuel e compondo, frequentemente, por encomenda.
Nas suas composições, que, curiosamente, excluem a participação em conjuntos poéticos coletivos, o virtuosismo e o motivo dos textos sobrepõem-se frequentemente à inspiração mais pessoal e subjetiva. Assim, por exemplo, os poemas de louvor religioso não são o ponto de chegada de uma oposição temática entre a vida mundana, inconstante e vã, e a justiça e segurança divinas, como sucede, por exemplo, com Álvaro de Brito, mas textos que quase se resumem a uma glosa das orações consagradas, obedecendo mesmo, nas trovas a Nossa Senhora, por ocasião das grandes pestes e fome de 1516, a uma finalidade intercessora.
Não é pois de surpreender que quando a postura antiaventura e até de reverso da imagem heroica da expansão constitui um dos fios condutores da expressão poética do Cancioneiro, seja Luis Anriques precisamente o autor do poema do Cancioneiro que mais próximo está da glorificação épica dos feitos dos portugueses. Este poema decassilábico "De Luis Anriques ao Duque de Bra- / gança, quando tomou Aza- / mor, em que conta / como foi", comprometido com uma apologia da cruzada evangelizadora, narra, depois de uma invocacão à Virgem, a partida do duque para Faro, onde foi pelo rei investido como chefe dessa missão, e daí para Mazagão e Azamor.
O relato protoépico constrói, ao longo dessas oitavas vibrantes de erudição greco-latina, uma imagem de herói, "mais trabalhando do que Anibal", "gran Cesar", firmada na coragem de feitos bélicos brevemente evocados, dada a rapidez e facilidade da conquista de 1513.
A poesia de Luis Anriques registou ainda três grandes momentos da história portuguesa: a morte do príncipe herdeiro D. Afonso, a morte de seu pai, D. João II, e a trasladação, com odor de santidade, das ossadas do mesmo monarca. As duas últimas composições não deixam de associar o panegírico de D. Manuel ao registo elegíaco, enquanto a primeira apresenta a singularidade compositiva de estruturar o pranto de forma dramatizada, dando a voz aos lamentos do Rei, da Rainha e da Princesa.
Num estilo completamente diverso, mas revelador também do seu potencial dramático, as trovas, censuradas no Index de 1624, a uma moça com quem "andava de amores", que convertera e casara com um judeu, explorando um cómico de linguagem conseguido pelo hebreu macarrónico e por alusões eróticas, atestam a versatilidade poética de Luís Anriques. No que diz respeito às composições amorosas e de circunstância, é de realçar a capacidade de expressão metaliterária na resposta "û homem / que nam cria que ele fizera ûas / trovas d' arte maior, / porque levavam / muita poesia", e, sob o signo da herança italiana de Petrarca e de Dante, bebida em Santillana, a composição, em castelhano, de um dos Infernos dos Namorados do Cancioneiro: depois de errar pelas selvas e vales solitários, o poeta encontra três damas, "tristeza / congoxa e esperança", que escutam o queixume amoroso e o acompanham na descida às "ravias infernales".
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