Mandei-lhe Uma Boca

Tendo como pano de fundo espácio-temporal a burguesia lisboeta, as suas ambiguidades e contradições, no rescaldo da Revolução de abril de 1974, este romance é construído na íntegra a partir do diálogo implícito de uma adolescente, Sara, com uma interlocutora, Riva, cujas réplicas são mantidas em surdina. Salta para primeiro plano, na organização discursiva, a reconstituição de uma oralidade, no que ela possui de recurso a registos de língua familiar, a anacolutos, a suspensões, a repetições, a bordões linguísticos, que reduz em absoluto a oposição entre linguagem quotidiana e linguagem literária, e, na anulação desta antinomia, produz um sentido ideológico de recusa de divórcio entre escritor e sociedade. Este romance surge como indagação sobre o devir do Portugal pós-revolucionário, visto a partir de uma voz representativa da "busca de identidade e de perspetivas de realização de largos setores da juventude dentro dos limites de três grandes polos referenciais: 1) a sua relação com uma geração que a precede e (in)forma; 2) o seu inevitável envolvimento (atração/repulsa) na História portuguesa a partir de abril; 3) a marca ideológica desse duplo trajeto no contexto classista da sociedade portuguesa." (MARTINS, Manuel Frias - Sombras e Transparências da Literatura, Lisboa, INCM, 1983, p. 151.)
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