Maria Isabel Barreno

Ficcionista, artista plástica e tradutora, Maria Isabel Barreno de Faria Martins nasceu a 7 de outubro de 1939, em Lisboa, e formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da mesma cidade. Foi funcionária do Instituto Nacional de Investigação Industrial e do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento, no âmbito dos quais publicou vários trabalhos de investigação sociológica. Depois de ter publicado alguns contos na imprensa periódica, o sucesso, em 1968, do romance De Noite as Árvores São Negras, seguido do "folhetim de ficção filosófica" Os Outros Legítimos Superiores, em 1970, confirmaria a sua vocação como romancista que leva ao maior arrojo um discurso narrativo aparentemente caótico, regido pela própria respiração e próximo do fluxo de consciência, e que aborda privilegiadamente sentimentos e pressentimentos de personagens femininas invulgarmente lúcidas e conscientes dos laços invisíveis que as unem aos outros. Com a participação, ao lado de Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, na aventura de Novas Cartas Portuguesas, uma obra cuja proibição e processo a projetaram além-fronteiras, o seu nome ficará indissociavelmente ligado à denúncia da condição da mulher na sociedade portuguesa. A reflexão sobre a necessidade de libertação mental da mulher será, nos anos subsequentes, ampliada à tentativa de definição de um "princípio feminino" que, encontrando finalmente voz na escrita feminina, fora sistematicamente aniquilado pela civilização. É esta convicção que está na base da obra A Morte da Mãe, obra híbrida, que mistura a reflexão sociológica e filosófica com a escrita literária, e onde desmonta o processo histórico que condicionou, na sociedade contemporânea, inclusivamente no pensamento de Marx e de Freud, a criação de novos espaços de ocultamento da "mãe". Da defesa da existência, nunca cabalmente avaliada, de um grupo social específico constituído pelas mulheres, até à aceitação de uma escrita especificamente feminina vai um passo curto, assumido, por exemplo, pela sua presença nas antologias Fantástico no Feminino (1985) e Escritoras Portuguesas Contemporâneas (1991). É nas últimas páginas de A Morte da Mãe que se encontra uma frase-chave para a compreensão de um primeiro ciclo narrativo na novelística de Maria Isabel Barreno, ao afirmar que uma das armas da revolução "é a desorganização total do texto, do quotidiano, do dito sério". (Cf. A Morte da Mãe, Lisboa, Caminho, Moraes Ed., 1979, p. 367.) Com efeito, no momento da sua aparição, a obra de Maria Isabel Barreno assume-se como transgressora relativamente aos processos narrativos tradicionais, ao encontrar numa cadência meditativa e irregular da escrita uma estratégia de apreensão do não-dito, do silenciado, libertando um discurso de outro modo reprimido pela consciência e pela sociedade. No combate declarado pela escrita contra a hipocrisia das relações humanas e contra as limitações socialmente impostas à livre expressão humana por uma sociedade burguesa, a novelística de Maria Isabel Barreno oscilará pendularmente entre esse discurso assimétrico e um discurso aparentemente lógico e ordenado, mas que releva de um realismo fantástico ou mágico, como nas "maravilhosas aventuras" de Célia e Celina, ou na novela O Mundo Sobre o Outro Desbotado, ou ainda em O Senhor das Ilhas, espécie de ficção histórica que refunde, pela imaginação, registos rasurados, na sua transmissão, por várias autorias: "para relatar a história dos meus, e a minha, as linhas que vieram determinando e colorindo nossas existências e também essas escuras cavernas do tempo que a memória não consegue explorar, recorrerei a todos os relatos que ouvi e li. Mas usarei sobretudo a minha imaginação, porque só essa luz de cada um de nós ressuscita os mortos e as sombras do passado." (Cf. O Senhor das Ilhas, Lisboa, 1994, p. 18.) De permeio, inscrevem-se coletâneas de contos, como Contos Analógicos ou Os Sensos Incomuns, onde prevalece a "procura duma outra lógica, na vida e no mundo, para além daquela que já pouco nos conforta ou nem mesmo nos guia - uma lógica da semelhança, da disparidade, do humor, uma lógica que nos aproxima do sentido das coisas, ou, pelo menos, da suspeita dos seus mistérios." (Cf. contracapa de Contos Analógicos, Lisboa, Rolim, s/d). Recebeu o Prémio Fernando Namora para Crónica do Tempo, em 1991.
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