Mário

Principal artífice da formação de um exército profissional em Roma, Caio Mário foi um rico homem novus, cheio de ambição política mas também capacidades militares, tendo recebido um forte apoio da família dos Metelos no começo da sua carreira. A qual só teve visibilidade pública quando atingiu os cinquenta anos de idade. Nasceu humilde, em 158 a. C., numa família de camponeses, em Arpinum. A sua carreira militar começou antes, às ordens de Cipião Emiliano. Foi tribuno da plebe em 119, pretor em 116, depois propretor em Espanha. Foi de seguida para África chamado por Quinto Cecílio Metelo Numídico, que ali comandava os Romanos contra Jugurta. Destacou-se na batalha de Mutul e na tomada de Sicca Venerua (Le Kef). Serviu como lugar-tenente de Metelo Numídico em África durante dois anos (109-108 a. C.). A sua carreira aos cinquenta anos era sólida, embora ainda sem brilho. Regressou então a Roma, onde criticou publicamente a conduta militar de Metelo. Candidatou-se em 108 ao consulado, tendo sido eleito em 107, substituindo Metelo, que substitui também em África. Semeou depois o descontentamento na classe equestre, o "mundo dos negócios" de então, contra o Senado, que não conseguia acabar com a guerra, aproveitando a situação política conturbada e as desordens populares. Assim, pôs-se habilmente ao lado da plebe, que protestava contra a guerra. A sua eleição de 107 baseou-se precisamente neste aproveitamento político da situação, embora tenha ficado numa posição contrária aos mais poderosos (optimates). Mas chegado ao poder e avivando a sua tendência conservadora, não tardou a fazer-se aceitar pela oligarquia aristocrática.
Uma das suas mais famosas medidas do consulado foi o recrutamento dos proletarii (cidadãos sem terra) nas fileiras do exército nas campanhas de África. Mário conseguiu assim acabar com um velho problema de Roma: a escassez de potencial humano para a guerra, algo que já antes Tibério Graco tinha tentado resolver, em vão. Todavia, Mário criou um novo tipo de exército que teria consequências políticas revolucionárias, como bem depressa provaram alguns seus contemporâneos mais jovens, como Sula e Pompeu Estrabão. Em 105 conseguiu finalizar a já longa guerra contra Jugurta em África, o que lhe valeu um triunfo em Roma. Foi eleito cônsul pela segunda vez em 104, na sequência da estrondosa derrota de Cipião e Mânlio em Arausio, na Gália (Orange, França). Neste seu novo consulado teve que enfrentar um novo perigo: a ameaça dos Cimbros e dos Teutões. Nas campanhas contra estes povos germânicos manteve-se sempre como cônsul, o que fez com que tivesse que ultrapassar obstáculos constitucionais, valendo-se do apoio do Senado, com o qual tinha então ótimas relações, como se depreende do seu consulado com Catulo em 102, por exemplo, e com a comemoração em conjunto com este do triunfo que celebrou a vitória final sobe os Cimbros em Vercelli, em 101. Foi eleito cônsul pela sexta vez, em 100, eleição "desnecessária", dado que apenas serviu para que fosse aclamado universalmente como "salvador do Estado".
Mário tinha, porém, que consolidar o seu poder, e para tal deveria recompensar os seus veteranos de guerra com terras, com o que o Senado não concordava. Esta posição conservadora do Senado teve então um apoio que abalou Mário: o de Metelo Numídico, seu antigo patrono e agora inimigo figadal. Por isso, Mário teve que procurar apoios políticos em figuras opositoras ao Senado, como Saturnino e Gláucia. Para além disso, utilizou os seus veteranos na aplicação pela força das suas leis. Mas algo novo surgiria: o Senado aprovou um decreto de emergência (senatus consultum optimum) e nomeou Mário cônsul para salvar o Estado. Mário eliminou então Saturnino e Gláucia, agora em nome do establishment senatorial. Mas ainda não foi nessa altura que Mário obteve dos optimates o reconhecimento que tanto desejava para as suas ações. O seu isolamento e impotência eram cada vez maiores, agravados com o regresso do seu inimigo Metelo do exílio, em 98, o que Mário entendeu como uma afronta pessoal. Auto-exilou-se então, participando numa embaixada à Ásia em 97.
Em Roma as coisas não melhoraram, com o cônsul Rutílio Rufo, apoiado pelos Metelos a cair em desgraça em 92 e depois com os insucessos de Lívio Druso em 91, o que reforçou a força política da fação de Mário. Este regressa, assumindo funções militares e conhecendo sucessos na guerra social que grassava em Roma. Todavia, dava-se nesta altura a ascensão de um nova figura política em Roma, Sula (ou Sila), que recebeu em 88 o comando militar contra Mitrídates, rei do Ponto que ameaçava, na Ásia Menor, o flanco oriental de Roma. Mário, com Sula ausente no Oriente, aliou-se uma vez mais ao povo, agora a Sulpício Rufo, um líder popular. Sula regressou então subitamente a Roma, forçando a fuga de Mário, com a vida em perigo. Uma vez mais encontrara refúgio entre os seus veteranos em África. Regressou a Roma em 87, à frente de um exército, foi (auto)eleito cônsul - com Cina - pela sétima e última vez. Ordenou de imediato um massacre a todos os seus adversários políticos. A morte adveio, contudo, em 87, pouco depois do início do consulado, não tendo cumprido a sua vingança.
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