Matias Aires

Matias Aires, o mais taciturno dos nossos escritores setecentistas, nasceu no seio de uma família abastada, único filho varão de um homem de negócios da praça de S. Paulo, no Brasil. Teve uma infância feliz, numa esplêndida abundância de amor e bens materiais, que ele próprio recordaria, mais tarde, como um paraíso perdido, pleno da festiva ocupação de um amor universal.Seu pai fixou residência em Lisboa em 1717, ingressando na nobreza, através da Ordem de Cristo, e subiu de arrendatário da alfândega do Rio de Janeiro até ao alto cargo de provedor da Casa da Moeda. Esta abundância financeira paternal permitiu ao jovem Matias uma educação nobre, com todas as prendas necessárias à vida em sociedade: dança, música, equitação e esgrima. Com elas pôde frequentar palácios, onde era bem recebido graças às grandes quantias que José Ramos da Silva, seu pai, emprestava aos fidalgos arruinados. Um deles era o conde de Ericeira, o árbitro das elegâncias literárias do tempo. Com tão excelente patrocínio, não admira que aos 18 anos já Matias Aires fosse sócio da Academia dos Aplicados.Em 1726 ou 1727 deu este autor origem a escândalo, ao golpear a língua de uma escrava, o que lhe valeu quatro anos de degredo no couto de Castro Marim.Matias Aires estudou no Colégio da Santo Antão e frequentou a Faculdade de Direito de Coimbra, interrompendo o curso para viajar para Madrid, Baiona e Paris, onde se demorou o tempo suficiente para se graduar em ambos os direitos e aprender Matemática, Física e Química experimentais com cientistas ilustres. Regressou a Portugal, em 1733, com a nostalgia da vida e da cultura parisienses e as cicatrizes do ferimento recebido durante o cerco de Gibraltar, onde servira como engenheiro voluntário.Por morte do pai, em 1743, herdou avultados bens e o cargo de provedor da Casa da Moeda, de que foi afastado em 1761, o que lhe terá agravado a profunda misantropia. O seu comportamento radicalmente antissocial não parecia excêntrico, antes despertava um interesse respeitoso. O ostensivo desengano de Matias Aires, visto de longe pelos seus contemporâneos, tomava um contorno místico, iluminado, perfeitamente adequado ao espírito da época. Era, apesar do seu carácter egoísta e misantropo, um espírito analítico favorecido pelas suas viagens e pela convivência de uma roda de estrangeirados, onde se salienta Alexandre de Gusmão, cuja influência se fez sentir também na sua irmã, Teresa Margarida da Silva e Orta. Revelou um grande interesse pelas Ciências da Natureza, uma curiosidade quase enciclopédica e uma consciência dos novos rumos da cultura, não acreditando, no entanto, na iluminística da razão, dado que defendia que os sábios, compreendendo os fenómenos físicos em leis, não atingem o âmago e o porquê das coisas.
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