memória

Literatura
A memória é uma forma discursiva que fixa vivências, ficcionalizando-as em interpretações que cruzam momentos, desdobram a realidade e valorizam múltiplos registos narrativos.
A memória surge como um escrito que permite ao seu autor recuperar e juntar pedaços que relatam acontecimentos considerados dignos de lembrança. Denomina-se memória exatamente por permitir a representação de evocações que a capacidade mnemónica apreendeu e fixou, conservando-as em latência. Ao contrário do diário, a memória ocupa-se de registos do passado, procurando traduzir imagens sensoriais recebidas mas afastadas no tempo e, muitas vezes, do espaço concreto ou ambiente em que se produziram. Influenciada pela afetividade e pela vontade, a memória identifica-se, frequentemente, com a consciência do Eu e apresenta-se datada por um tempo interior. Identificando vivências e experiências passadas, criando pontes entre tempos, espaços, factos e pessoas, favorece a construção de novos sentidos para o presente da vida humana. Torna-se, assim, numa obra histórica que, situada no presente da memória, recorre ao passado para olhar o futuro.

Informática
A memória do computador funciona como área de armazenamento de dados e programas.
Basicamente a memória pode ser dividida em "memória principal" - os dados são armazenados em chips de memória e "memória secundária" -discos rígidos, discos óticos e outros tipos de armazenamento de massa.
Existem diversos tipos de memória, como a RAM (Random Access Memory) - memória de acesso aleatório, onde os dados podem ser gravados e lidos vezes sem conta. Os dados na memória RAM são voláteis, o seu conteúdo perde-se quando a alimentação do computador é cortada ou interrompida. Um outro tipo de memória, a ROM (Read Only Memory) - permite o acesso em modo de leitura, os dados gravados são permanentes e não podem ser apagados.
A memória, normalmente, encontra-se armazenada em bancos, independentemente dos seus circuitos serem chips ou SIMM. Os chips de memória são circuitos integrados criados em pequenas pastilhas de silício. O SIMM (single in-line memory module) consiste num circuito integrado preenchido por chips de memória.
Existem SIMM de diversas capacidades (1, 4, 8, 16, 32 e 64 MB), com "tempo de acesso" de 90, 80, 70, 60 nanossegundos (ns).
Os SIMMs de 30 pinos são de 8 bits (9 bits para verificação da integridade dos 8 bits de dados) e os de 72 pinos são de 32 bits (36 bits com paridade). Em processadores Pentium, têm de ser instalados ao pares.
Um outro tipo de SIMM é o DIMM (Dual In-line Memory Module) de 64 bits com 168 pinos em duas linhas de contacto duplas que têm vindo a substituir os SIMMs tradicionais. Não têm de ser instalados aos pares.
Os computadores utilizam memória cache, destinada a acelerar certos processos de comunicações do processador com memória e dispositivos lentos. O controlador de memória cache, realiza um estudo estatístico da informação mais solicitada e mantém ativos na memória os dados de acesso frequentes.

Psicologia
Entende-se por memória a habilidade para adquirir e conservar informação assim como a capacidade para recordar e reconhecê-la. Ela é um campo complexo de processos baseados em mecanismos biológicos, fisiológicos e psicológicos.
Os primeiros estudos acerca da memória são da autoria do psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus, por volta de 1885.
O modelo explicativo mais utilizado pelos psicólogos é o esquema clássico da elaboração da informação baseada na analogia entre a memória humana e o funcionamento dos computadores (R. C. Atkinson e R. Shiffrin, 1971).
Os psicólogos defensores da conceção comportamental do processamento de informação explicam que este modelo necessita de sistemas particulares de armazenamento destinados a elaborar e armazenar informação. Por exemplo: É dada uma orientação para localizar uma casa; a informação dá entrada (input) e fica inicialmente retida no armazém sensorial; ao ser-lhe dada a devida atenção, passa para o armazém ou memória a curto prazo que apenas retém a informação, se esta for em pequena dose, por pouco tempo; no passo seguinte, ao obedecer a estas condições, a informação é consolidada, ou seja, memorizada passando para a memória a longo prazo. Contudo, este processo poderá eventualmente sofrer interferências de outras aprendizagens e causar deturpações ou esquecimento da informação em causa.
Neste modelo, descreveu-se que a memória pode ser medida através da retenção ou do esquecimento. No que diz respeito à retenção, esta é analisada de acordo com os seguintes métodos: através da recordação, através da reaprendizagem e pelo método do reconhecimento.
Com a possibilidade de recordar o sujeito repete o que aprendeu anteriormente. Existem dois tipos de recordação: a livre que é determinada pelo número total de elementos recordados, independentemente da sua posição (por exemplo, decorar uma lista de nomes de objetos e recordá-los por uma ordem qualquer); e a antecipada que é determinada pelo número de elementos recordados na posição correta (de acordo com o exemplo anterior, seria recordar os nomes dos objetos da lista pela sequência apresentada).
O processo de reaprendizagem explica que por vezes somos incapazes de recordar qualquer coisa, muito embora não tenha sido completamente esquecida, mas com um pouco de exercício reaprendemos mais rapidamente do que quando memorizámos pela primeira vez.
O processo do reconhecimento consiste no reconhecer coisas que nos são familiares no meio de outras que não conhecemos. Por exemplo, depois de um sujeito aprender uma lista composta por dez termos associados a medo, apresenta-se-lhe uma outra lista composta por cinquenta termos, pedindo-lhe que dela extraia através do método do reconhecimento, a lista original dos dez termos associados ao medo.
A medição do esquecimento pode ser efetuada através dos métodos da interferência e do recalcamento que afetam a memória durante o período compreendido entre a aprendizagem e a retenção da informação que é dada nessa mesma aprendizagem.
A interferência na memorização de uma informação é da responsabilidade das atividades intermédias que ocorrem durante o processo. Chama-se inibição retroativa, ao efeito interferente que uma nova aprendizagem pode ter sobre aquilo que foi previamente aprendido e chama-se inibição proativa à situação oposta, ou seja, ao efeito interferente do que aprendemos antes em relação ao que vamos memorizar. Os estudos realizados revelaram que a inibição proativa produz menos esquecimento do que a inibição retroativa.
O esquecimento motivado ou recalcamento foi primeiramente explicado por Sigmund Freud. Este psicanalista austríaco revelou a influência da motivação sobre a retenção e empregou o termo de recalcamento para descrever a tendência a evitar a lembrança de alguma coisa associada ao medo ou ao desprazer de qualquer espécie (por exemplo, esquecer um encontro com alguém de que se não gosta, motiva ao esquecimento do encontro porque evita uma experiência desagradável).
Os problemas de memória podem ser os mais variados. De toda a psicopatologia da memória refere-se as amnésias sensório-motoras, que se dividem nas amnésias sensoriais ou agnosias visuais, auditivas e tácteis (nas agnosias, o doente sente mas não reconhece o que sente como, por exemplo, numa agnosia visual o doente tem uma visão perfeita mas não reconhece o que vê); e nas amnésias motoras ou apraxias, que se traduzem no esquecimento dos gestos (inclui a agrafia que é a perda da possibilidade de escrita e a afasia que é perda da possibilidade da fala).
As amnésias sociais caracterizam-se pela perda da função social da memória, dividem-se em amnésias de memorização ou fixação (incapacidade de formar novas recordações, conservando-se o que já foi fixado) e as amnésias de rememoração ou evocação (perda das lembranças, ou seja, do material previamente aprendido).

História
A História é a disciplina que faz reviver a memória coletiva, sem a qual não pode passar no decurso do seu processo científico. A memória surge inscrita nos monumentos, nos textos, nas leis, nos costumes, na língua, na cultura que se transmite através dos livros, do ensino da História. Esta, como ciência social e humana mas também disciplina escolar, tem por natureza e como principal missão a tarefa de manter viva a memória. Há assim uma relação de cumplicidade entre a memória e a História, embora nem sempre neutralmente ou de forma pura, isto é, sem manipulações ou instrumentalizações políticas.
A memória pode ser classificada segundo critérios de duração:
- sensorial, que compreende a visão e a audição, ambos de escassa duração, breves;
- imediata, a curto prazo, limitada a poucos objetos;
- recente, quando o espaço de tempo memorizado oscila entre minutos e algumas semanas;
- remota, quando mantém informação desde semanas até toda a vida.
Em termos de conteúdo, no que se relaciona com a sua funcionalidade ou utilidade, a memória pode ser:
- de referência, quando contém informação recente e remota, retida através de experiências breves;
- de trabalho, que se aplica a um processo ativo atualizável constantemente pela experiência de um determinado momento;
- episódica, quando retém informação relativa a factos ocorridos num momento e lugar precisos;
- semântica, com informação que não varia;
- declarativa ou explícita, que é a que a História mais recorre, pois abarca os acontecimentos do mundo no passado - coletivos ou individuais -, que é necessário recuperar para serem recordados;
- de procedimento, implícita, que consiste na aprendizagem e conservação de habilidades e destrezas, procedimentos que acabam por se automatizar sem necessidade de execução consciente (como nadar, andar a cavalo).
Contudo, memória e história são também opostos, pois a memória é um absoluto e a História apenas conhece o relativo, como dizia Pierre Nora, historiador francês dedicado ao estudo desta relação. Para entendermos esta "oposição", que não choque, diríamos que a memória se enquadra no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto; já a História relaciona-se com as continuidades temporais, as evoluções e as relações entre as coisas. A História é a sempre problemática e incompleta reconstrução daquilo que já não existe mais, do que já passou; a memória é, por seu turno, um fenómeno sempre atual, uma ligação vivida ao eterno presente, ao quotidiano. A História é pois uma representação do passado, recuperadora de memórias, que reconstrói; a memória é a vida, de grupos vivos, pelo que é uma evolução permanente, aberta à dialética da recordação e da amnésia, inconsciente das suas sucessivas deformações, vulnerável a todas as utilizações e manipulações, ora muitas vezes letárgica, latente, ora plena de súbitas revitalizações.
Memória e História podem ser sinónimos, interactuantes. A memória torna-se ela própria o objeto de uma história possível. Não é a História uma disciplina de memória, a qual é um património mental, um conjunto de recordações que alimentam representações (de um passado), o métier da História? A memória assegura a coesão dos indivíduos num grupo ou na sociedade, podendo inspirar ações do presente. A História representa essas articulações, estuda-as e projeta-as no tempo e no espaço. Há assim uma relação dialética, ambas se alimentam uma da outra.
A memória alimenta a História. Por um lado, a memória dos testemunhos ou relatos (orais ou escritos) dos acontecimentos é "o mais belo material da História", dizia Jacques Le Goff, renomado historiador francês: o papel desses testemunhos é vital para o ofício do historiador. Este trabalha-os, depois de os recuperar, confronta-os, restitui-os ao seu contexto, testa-os nos traços materiais do passado que procura reconstruir. Por outro lado, a memória tornou-se também um objeto de estudo dos historiadores, quando estes começaram a reconstituir os chamados "lugares de memória" ou a fazer trabalhos sobre as memórias de diferentes grupos (étnicos, sócio-profissionais, regionais, religiosos, etc.). Mas a História também alimenta a memória, pois os historiadores e professores dessa disciplina não se contentam apenas em utilizar a memória como fonte, mas contribuem também para essa mesma memória, enquanto reflexo do que existiu no passado, reflexo esse baseado na formação de conexões temporais na sua atualização ou recuperação no futuro. Como disseram Tucídides e Heródoto, depois repetidos por Cícero, a "História é a mestra da vida".
Como referenciar: memória in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-09-21 12:50:11]. Disponível na Internet: