Militares e Populistas na América Latina (1930-1989)

Os países sul-americanos de forte tradição europeia, herdada do período colonial através da língua, da religião e de múltiplos fatores civilizacionais, veem-se ligados aos Estados Unidos da América a partir das primeiras duas décadas do século XX, estabelecendo-se uma relação que os norte-americanos dominam fortemente. Será com este equilíbrio de forças como pano de fundo que, ao longo de grande parte do século XX, se desenvolvem os Estados sul-americanos contemporâneos, com uma economia quase sempre deficitária (industrialização tardia) e com sistemas políticos de forte pendor militar, que se revelam mais autoritários e opressores que os caudilhos do século XIX.
A herança dos caudilhos oitocentistas é visível em figuras como Anastasio Somoza (Nicarágua), Fidel Castro (Cuba) ou Alfredo Stroessner (Paraguai), que mantiveram (Castro ainda mantém) uma ditadura militar conservadora, ou revolucionária, no caso contrário, sob o seu comando pessoal, instaurada sob o pretexto dos regimes civis não conseguirem impor a sua autoridade. Estes regimes militaristas afirmavam-se como garantes da soberania do Estado, tomando o poder sob a forma de golpe de Estado, como foi o caso de Getúlio Vargas (Brasil, 1937) ou de Juan Velasco (Peru, 1968). Em 1975, na Argentina, o General Videla instaura uma ditadura militar, três anos depois de Augusto Pinochet ter feito o mesmo no Chile. Toda a história do século XX dos países da América Latina é marcada por períodos de ditadura militar, ainda que em alguns casos reformista, de carácter populista (como a de Juan Péron na Argentina) ou civil, alternados por períodos de profunda instabilidade ou de ténue democracia, quase sempre de fachada e sem grande participação social. Ao mesmo tempo, os regimes são contestados por movimentos de guerrilha, como o Sendero Luminoso ou o Tupac Amaru (Peru), que resultam num agravamento das medidas repressivas.
Somente a partir da década de 80 se iniciam processos de democratização mais sólidos, embora fortemente abalados pela herança económica e social dos anteriores governos. Aqui se enquadram o enfraquecimento do poder do general Pinochet, no Chile, que consente uma transição para a democracia, completa em 1989, e em outros países como o Peru (1980), a Bolívia (1982), a Argentina (1983), o Brasil e o Uruguai (1985), cujos regimes ditatoriais dão lugar a regimes civis, com eleições livres e pluripartidárias.
A perda de poder por parte dos Estados autoritários explica-se tendo em conta a evolução da economia mundial. Estes regimes revelaram-se incapazes de resolver os graves problemas económicos e sociais respetivos, aos quais respondiam com o endividamento galopante, o que colocou alguns desses países em situação de bancarrota e numa crescente dependência face ao exterior, e com medidas de contenção extremamente restritivas, que penalizavam, em particular, as classes mais pobres. Tudo isto resultou num empobrecimento das classes rurais, que se deslocaram para as cidades, onde florescia o desemprego, a marginalidade e os bairros de lata, contrastantes com uma pequena elite na posse de enormes fortunas.
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