Missionação Bizantina na Rússia: Vladimir, o Santo Rei

No Império Bizantino a relação entre o Estado e a Igreja era muito estreita. O patriarca de Constantinopla, eleito pelo imperador, era a segunda personalidade do império detentora do poder temporal e espiritual.
Os bispos bizantinos viviam da generosidade dos Basileus, embora a partir do século X as doações à Igreja passassem a ser impostas pelo fisco.
Até ao século XI a Igreja cristã era tida como una e universal, embora na prática isso não acontecesse desde as invasões bárbaras. Os Papas desejavam dominar toda a igreja, sobretudo a partir do momento em que receberam os Estados Pontificais dos Reis francos, contra a vontade da igreja oriental. O Imperador Leão III retirou o poder espiritual do Papa na Itália do Sul, Sicília e Ilíria, por este ter defendido o culto das imagens (questão iconoclasta).
O ponto alto deste conflito aconteceu no século IX, quando os missionários bizantinos Cirilo e Método atingiram a Morávia e a Bulgária foi cristianizada, segundo o rito oriental. O Papado teve alguns dissabores na Rússia e na Sérvia, mas no século XI reavivou a sua esfera de influências no Sul da Itália e reafirmou as suas pretensões à liderança. A resposta do patriarca motivou a sua excomunhão (1054), decretada pelos delegados do Papa, que desencadeou o Cisma. O chefe religioso de Constantinopla lançou então o seu anátema, consumando assim a divisão das duas igrejas.
As divergências ideológicas, relativas a questões como o dogma, os ritos e a administração, escondiam interesses políticos e sistemas económicos opostos. A divisão religiosa agravou a situação externa do Império Bizantino.
No reinado de Basílio I (867-886), fundador da dinastia dos Macedónios, a situação era estável, mas por um curto espaço de tempo. Nos finais do século IX, o império foi abalado por Árabes e Búlgaros. Os Árabes apoderaram-se da Sicília e do Chipre, ameaçaram o Sul de Itália e transformaram Creta numa base de piratas. Simeão da Bulgária entrou em guerra com Bizâncio, ocupou a Macedónia e o Epiro e submeteu os Sérvios. Após a sua morte (927) o seu filho Pedro assinou um tratado de paz. Na segunda metade do século foram reconquistadas: Creta, a Sicília, o Chipre, a Síria do Norte, a Antioquia e a Bulgária do Norte. No fim do século X a Bulgária Oeste recuperou o território do Norte, estendeu-se até às costas do Adriático e ocupou a Tessália.
Basílio II (976-1025), o Bulgaroctone, lutou durante cerca de 40 anos, até à sua vitória (1018).
No século IX os Russos intensificaram a sua pressão sobre o Império Bizantino, iniciada com as expedições à Crimeia e às costas meridionais do Mar Negro. Constantinopla foi atacada (860), mas o conflito terminou pela assinatura de um acordo de paz e a conversão da aristocracia de Kiev.
No século X reacendeu-se a guerra, sanada por um novo tratado.
Em 941, o Príncipe Igor preparou uma nova ofensiva contra Bizâncio que obrigou os seus governantes a negociar a sua retirada (com doações e com a renovação do tratado comercial).
Em 968, os Bizantinos aliciaram Sviatoslav a fazer guerra com a Bulgária, todavia, depois da sua submissão, este príncipe instalou-se no Danúbio. Entre 970-71 guerreou contra o império, ao lado dos Búlgaros, mas teve de pedir a paz e deixar a Bulgária. Pela assinatura de um novo contrato renunciou as pretensões sobre Kherson e a Bulgária e comprometeu-se a auxiliar militarmente o império.
Na década de 80 do século X, Vladimir, a pedido do imperador Basílio II, enviou as suas tropas para ajudar a dominar a sublevação dos senhores feudais da Ásia Menor. Comprometendo-se a dar em casamento a sua irmã Ana ao grão-príncipe Vladimir de Kiev.
A data vulgarmente aceite para a adoção do Cristianismo na Rússia é 988, apesar da missionação ter começado um pouco antes, em grupos restritos da população russa. Antes desta data, os Varegues (ramo oriental dos Vikings), os Eslavos e os comerciantes de Kiev já tinham entrado em contacto com a religião cristã do Império Bizantino. As populações escandinavas, fixadas à beira do Mar Negro, estariam convertidas a esta religião em 864 e entre 954-955 a Princesa Olga, avó de Vladimir, abraçou a religião cristã oriental.
O processo de cristianização ocorreu num momento em que o poder principesco se organizava em Kiev, num Estado que estava a consolidar o seu domínio sobre as tribos de Eslavos de Leste. A cristianização foi promovida pelos chefes russos, que assim pretenderam estabelecer laços de lealdade com populações ainda distantes que passam a estar unidas por um credo comum.
Numa fase inicial, os grão-príncipes utilizaram o culto pagão, mas paulatinamente sentiram a necessidade de fortalecer as estruturas sociais alicerçadas no poder do soberano, que passaram a promover uma nova religião.
A conversão é a apresentada na Crónica dos Tempos Passados, como uma lenda protagonizada por Vladimir I Svitoslavich de Kiev, que mandara vir à sua presença representantes de vários credos: um búlgaro expôs-lhe as virtudes do Islão, alemães defenderam o Cristianismo Romano, khazars explicaram-lhe o Judaísmo e um grego fez a apologia da fé ortodoxa, que Vladimir veio a professar, numa altura em que ficou noivo de uma princesa bizantina e lhe foi exigida a conversão. Segundo a lenda, o príncipe ficou cego recuperando a visão à chegada da sua noiva, quando foi batizado. Em seguida mandou destruir as estátuas dos deuses pagãos e obrigou o seu povo a batizar-se coletivamente, num afluente do Dniepre, provavelmente o Potchaia na primavera de 988.
O chefe da igreja russa é o metropolita, estabelecido em Kiev, que reconhece a autoridade do Patriarca de Constantinopla. Nos séculos X e XI foram criados bispados e mosteiros (o primeiro mosteiro russo foi fundado em Atos, na Calcídica, no século XI), mas a evangelização não foi além dos arredores de Kiev. Só no século XIII é que a Igreja viu o seu papel reforçado e as suas estruturas fortalecidas.
Após a conversão, pintores e arquitetos bizantinos viajaram até Kiev, cidade onde foram introduzidos livros sagrados e objetos de culto da Bulgária e de Bizâncio.
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