Missionação no Brasil

A missionação em terras brasileiras foi acima de tudo a evangelização dos indígenas. Franciscanos, capuchinhos, beneditinos e jesuítas e ainda missionários protestantes dedicaram-se à tarefa de ensinar a doutrina cristã aos índios brasileiros. Os obstáculos foram vários, entre os quais as dificuldades de comunicação com as populações indígenas, que resultaram muitas vezes em fracasso. Foi o caso das ações pontuais dos franciscanos e dos beneditinos. Os jesuítas tiveram mais sucesso porque adotaram um método de fixação das populações indígenas em aldeamentos. Na sua essência não diferiam muito dos estabelecimentos dos colonos, pois os índios tinham de trabalhar a terra e viver no local segundo regras impostas, sem liberdade de escolha. A maior diferença residia, contudo numa menor dureza de trato. Os conflitos entre jesuítas e bandeirantes paulistas foram uma constante durante todo o século XVII. Os colonos, a quem apenas interessava o índio enquanto mão de obra escrava, não viam com bons olhos estes aldeamentos jesuítas e muitas vezes destruíam-nos levando os indígenas com eles.
Entre 1500 e 1584, a presença dos franciscanos foi esporádica e sem objetivos definidos. Com a expedição de Pedro Álvares Cabral em 1500, chegaram ao Brasil oito frades franciscanos entre os quais frei Henrique de Coimbra, futuro bispo de Ceuta que celebrou a primeira missa no Brasil a 26 de abril. Depois os franciscanos seguiram caminho para a Índia. Em 1516, dois frades franciscanos foram mortos pelos Tupinambás tornando-se nos primeiros mártires do Brasil. Os capuchinhos, um ramo dos franciscanos criado em 1520, encontravam-se, na França Equatorial, a colónia fundada pelos franceses no Maranhão, entre 1612 e 1615. Contudo, a data oficial da vinda dos capuchinhos para o Brasil é a de 1642, quando João Maurício de Nassau, governador - geral do Brasil holandês, lhes concede licença para pregar. Mas, a ação dos frades capuchinhos destaca-se sobretudo pela sua ação missionária no Vale do Rio São Francisco onde fundaram várias aldeias, durante a segunda metade do século XVI e a primeira do século XVII. Em 1740, a sua atuação entra em crise e, em 1759, os capuchinhos acabam por perder a jurisdição sobre as aldeias que ministravam no Rio São Francisco.
Os beneditinos, os franciscanos e os missionários protestantes franceses chegaram em 1561 a Fort-Coligny, a colónia da França Antártica (1555-1567) fundada na baía da Guanabara, no Rio de Janeiro. O objetivo era catequizar os Tupinambás, mas os obstáculos encontrados foram muitos, incluindo os atritos entre católicos e protestantes. Durante a ocupação holandesa do Nordeste brasileiro, entre 1581 e 1654, a ação missionária protestante foi mais intensa. Durante este período existiram 22 igrejas protestantes sendo a mais importante a do Recife. Os protestantes aproveitaram o sistema de aldeamentos introduzido pelos jesuítas desde 1549 para catequizar os índios e em 1639 já tinham fundado aldeias no Rio Grande, Paraiba, Itamaracá e Pernambuco. Um dos aspetos privilegiados na evangelização protestante foi a divulgação da mensagem evangélica na língua dos nativos. Durante este período, seis índios Potiguares chegaram a ir para os Países Baixos onde receberam instrução e depois regressaram ao Brasil para servirem de tradutores. Destas ações resultou o primeiro catecismo na língua tupi impresso em Amesterdão, em 1641.
A Companhia de Jesus estava em Portugal desde 1540 e em 1549 chegaram ao Brasil, com o primeiro governador Tomé de Sousa. A missão da Companhia de Jesus tinha por objetivo a evangelização dos indígenas e combater a influência dos protestantes. A educação das populações urbanas era outra das vocações da ordem. A ação mais abrangente e profunda dos missionários jesuítas foi a da evangelização dos indígenas. O estabelecimento de missões e aldeamentos esteve na origem de muitas vilas e cidades do Brasil colonial, como Salvador, São Paulo ou o Rio de Janeiro. A escravidão do índio fora proibida em 1606, mas os protestos dos colonos acabaram por alterar a lei e a partir de 1611 o índio podia ser escravizado no contexto da guerra justa. Os jesuítas resgatavam muitas vezes os índios dos colonos, mas apenas para os levar para os aldeamentos onde viviam segundo o modo de vista imposto pela missão. Os aldeamentos eram unidades autossuficientes, em que cada família cultivava uma porção de terra e contribuía para o esforço coletivo da comunidade. A retribuição pelo trabalho era feita em produtos. Entre as atividades domésticas incluíam-se a tecelagem e a confeção do vestuário. A catequese fazia parte da rotina diária de crianças e adultos. Havia ainda um conselho rudimentar presidido por um corregedor indígena eleito pela comunidade. Os aldeamentos situavam-se nas regiões inóspitas do sertão, para onde fugiam os indígenas. Contudo, os colonos olhavam com cobiça para estes redutos de indígenas domesticados e os assaltos eram frequentes.
Em 1759, os jesuítas foram expulsos de Portugal por ordem do Marques de Pombal e a 21 de julho de 1773, a ordem foi extinta por decreto do Papa Clemente XIV.
O contributo das missões jesuíticas no Brasil foi relevante em várias vertentes. Por altura da sua expulsão do Brasil, os jesuítas contavam com 670 estabelecimentos entre aldeias, missões, colégios e conventos. Não menos importante para o estudo dos aspetos culturais da época são as cartas escritas do Brasil pelos missionários, muitas delas anónimas. Do seu conteúdo constam relatos das aventuras entre índios e colonos, procissões realizadas na selva, histórias de conversões, fugas, descrições de cenas de canibalismo e de milagres.
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