monstros humanos da literatura e do cinema

O tema dos monstros humanos ou humanoides é um sub-género da literatura e do cinema fantástico e de terror. O cinema foi inspirar-se na literatura dos séculos anteriores, quer na erudita, sob a forma de novelas góticas, lendas e mitos antigos, quer na popular como os folhetins e os romances de feira. Os espetáculos de terror populares das feiras, que também inspiraram a literatura, são talvez o antecedente mais direto, porque visual, dos monstros humanos no cinema fantástico e de terror. Entre os mitos mais famosos com origem literária estão o Corcunda, da obra Nossa Senhora de Paris de Victor Hugo, que foi levada à tela pela primeira vez por Albert Capellani (Notre Dame de Paris, 1911) e depois por W. Worsley em 1923, William Deterle em 1939 e Jean Delannoy em 1956. Os estúdios da Disney, em 1996, apresentaram ainda, em 1996, o filme animado O Corcunda de Notre Dame. O mesmo aconteceu com O Golem, de Gustaf Meyrink, transportado para o cinema por Paul Wegener e Henrik Galeen (Der Golem, versões de 1915 e 1920), e Frankenstein, da escritora inglesa oitocentista Mary Shelley, que no cinema teve duas versões menores antes de Frankenstein, o Homem Que Criou Um Monstro (1931) de James Whale. O termo Golem aparece uma única vez na Bíblia (salmo 139:16) referindo-se a um Adão num estágio de "não formado" ou "desprovido de forma". Segundo uma lenda medieval de origem checa, o rabi Loew criou um Golem que, vivificado pela palavra de Deus escrita na sua testa, ajudou o rabi nos seus trabalhos durante uma semana inteira. Um dia, o rabi esqueceu-se de apagar a palavra shem e o Golem começou a agir como um monstro mas foi rapidamente dominado pelo rabi quando este lhe apagou a palavra da fonte. No filme de Paul Wegener e Henrik Galeen, com referências à Cabala e à mística judaica, o Golem era o salvador do povo judeu que se rebelou contra o seu criador. Depois da primeira versão de 1914, existiram várias versões de Golem até à curta-metragem de 1995, The Golem de Lewis Schoenbrun. O tema da criação de seres monstruosos fabricados, os humanoides, teve no cinema uma primeira versão de filme mudo com Frankenstein (1910) de J. Searle Dawley e Thomas A. Edison, com Charles Ogle e uma segunda versão com Homunculus Der Führer (1916) de Albert Neuss e Otto Ripert. Mais conhecidas seriam as posteriores versões de Frankenstein, com o ator húngaro Bela Lugosi, produzidas em 1931, pelos estúdios da Universal e realizadas por Robert Florey. Os filmes seguintes, Frankenstein (1931, com o título em português Frankenstein, o Homem Que Criou Um Monstro) e Bride of Frankenstein (1935, com o título em português A Noiva de Frankenstein), seriam realizados por James Whale e teriam como intérprete o mundialmente famoso Boris Karloff. O sucesso mundial de Frankenstein, o nome do médico louco que o público passou a atribuir ao humanoide, fez com que vários realizadores se dedicassem a este tema como foi o caso de Roland V. Lee (1939, Son of Frankestein, com o título em português O Filho de Frankestein), Erle C. Kenton (The Ghost of Frankenstein, com a tradução em português A Sombra de Frankenstein, 1942, e House of Frankenstein, com a tradução em português A Casa de Frankenstein,1944), Charles T. Barton (1948, Abbot and Costelo Meet Frankenstein, com a tradução em português Abbot e Costelo e os Monstros), Herbert L. Strock (1957, I Was a Teenage Frankenstein, com a tradução em português A Volta de Frankenstein), Terence Fisher (1957, The Curse of Frankenstein, com a tradução portuguesa A Máscara de Frankenstein) e Kenneth Branagh (Frankenstein, 1994) entre outros. Para além de Bela Lugosi e Boris Karloff, assumiram a pele de Frankenstein os atores Lon Chaney Jr., Glen Strange e Christopher Lee. O tema humanoide teve a sua versão feminina na mulher artificial de Metropolis (1936) de Fritz Lang. O primeiro filme do expressionismo alemão e um dos mais célebres do cinema de terror foi Das Kabinett des Doktor Caligari (O Gabinete do Dr. Caligari, 1920) de Robert Wiene, em que um médico neurologista hipnotiza um dos seus doentes, Cesare, para depois o exibir pelas feiras de aldeia. O nome de Caligari foi inspirado numa personagem de Stendhal e utilizado no argumento de Hans Janowitz e Carl Mayer para o filme de Robert Wiene. O realizador Fritz Lang seguiria o mesmo caminho com o seu Dr. Mabuse, der Spieler (Dr. Mabuse, o Jogador, 1922) e o Das Testament des Dr. Mabuse (Testamento do Dr. Mabuse, 1933) que, proibido pelos nazis por verem nele uma alusão ao seu regime, seria clandestinamente exportado pelo seu realizador na sua viagem de exílio. Este tema da manipulação da mente humana tem uma outra faceta, a da exploração da deformação do corpo. O que a literatura e o cinema chamou de monstros humanos não foram só criados pelo Homem. Homens e mulheres com deformações da natureza fizeram sempre parte dos espetáculos de feira e de circo perante um público motivado pela curiosidade e pelo horror. Na literatura, o Corcunda de Nôtre Dame, da obra de Victor Hugo, poderá ter sido o mais antigo mas no imaginário das lendas e mitos antigos não faltam humanos deformados ou híbridos como é o caso do grego Minotauro. No cinema foram provavelmente Scott Dunlap, com Her Elephant Man (1920) e Ted Browning, com The Man Without Arms (O Homem Sem Braços, 1927) e Freaks (A Parada dos Monstros, 1932) dos primeiros realizadores a abordar o tema. Entre os filmes de qualidade do género estão Les Yeux Sans Visage (1959) de Georges Franju, La Donna Scimmia (A Mulher Macaco, 1963) de Marco Ferreri e Tell Me That You Love Me, Junie Moon (Diz-me Que me Amas, Junie Moon, 1970) de Otto Preminger, este último filme é uma adaptação da novela de Marjorie Kellog. Com base nos livros de Sir Frederick Treves, The Elephant Man and Other Reminisces, e de Ashley Montagu, The Elephant Man: A Study in Human Dignity, a humanização da visão das deformações humanas teria o seu melhor em The Elephant Man (O Homem Elefante, 1980) de David Lynch, uma obra-prima baseada numa história verídica de John Merrick, uma aberração da época vitoriana, com as excelentes participações de Anthony Hopkins, John Hurt e Anne Bancroft. Baseado na novela de Gaston Leroux, O Fantasma da Ópera, que não era mais do que um compositor fracassado de rosto deformado por um incêndio, teve a sua primeira versão no cinema mudo em 1925, realizado por Rupert Julian, e veria o tema repetido por várias épocas e por diferentes realizadores. Uma análise aprofundada a este tema faz com que surja um outro: a importância da humanização interior. A verdadeira monstruosidade não está no humanoide mas no médico louco, não está no ser humano deformado mas na deformação mental daqueles que dele se riem ou que ganham dinheiro à custa da sua diferença. No seguimento deste ideia, os realizadores italianos Mario Monicelli e Dino Risi não deixam de fazer uma abordagem interessante em I Nuovi Mostri (Os Novos Monstros, 1978) em que transferem a monstruosidade não para o exterior, para o corpo, mas agora para o interior, para a mente humana.
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