montanha (simbologia)

Palavra com origem no latim montanea, é o lugar por excelência de manifestação do sagrado (hierofania) e do profano (teofania). A história bíblica como as tradições religiosas das grandes religiões monoteístas e do Livro (Judaísmo, Cristianismo e Islão) reforçam esta conceção cósmica da montanha. O Calvário, ou Gólgota, como lugar de enterramento de Adão e crucifixão e Morte de Jesus Cristo (o antigo monte Moriá, onde Abraão ia sacrificar seu único filho, Isaac), sinaliza o omphalos, ou seja, o umbigo do mundo, como o Sinai é a montanha sagrada onde Moisés recebeu de Deus as Tábuas da Lei e a hierofania de Deus na Sarça Ardente. O Olimpo sempre foi a montanha sagrada dos Gregos Antigos, como também o monte Fuji para os Japoneses. E o Etna não era a forja de Vulcano, ou o Ararat a montanha onde encalhou a Arca de Noé, em pleno Cáucaso, a cordilheira onde Prometeu foi agrilhoado para seu castigo e onde uma ave lhe ia comer o fígado todos os dias? Muitas são as referências às montanhas como lugares mágicos, de forte simbolismo, mitológico como cultural, religioso ou até político.
Zeus, Apolo, as Musas, entre outras figuras da mitologia greco-romana, habitavam montanhas, lugares que eram, por isso, considerados sagrados. Esta mesma sacralidade manter-se-ía no Cristianismo, com as montanhas a recordar a ideia de escada do Céu, de cruz, de virtudes que se procuram, de paraíso terrestre, de lugar de busca de Deus. Ou do seu encontro através de aparições (como em Lourdes, França, em 1858) ou estigmatizações, como S. Francisco de Assis em 1224, no Mont'Alverne, Itália. Lugar de solidão e contemplação monástica, em mosteiros católicos como a abadia beneditina de Montecasssino, na Itália, ou nos mosteiros budistas do Tibete, mas também lugar de guerra e conflito, quando não de poetas, como o Parnaso dos Gregos. Maomé não esteve anos num monte a receber a Revelação de Deus através do Arcanjo Gabriel, que depois plasmou no Alcorão? As montanhas abrem e encerram o ciclo da revelação judaico-cristã, assinalando também a passagem da idade (era, época) dominada pela lei divina para uma idade do Perdão, iluminada pela Graça.
O carácter único e místico das montanhas advém da antiga crença de que nos seus cumes, muitas vezes de forma escondida num manto espesso de nuvens, se consumavam hierogamias, encontros amorosos entre o Céu e a Terra, ou então entre divindades, como Zeus e Hera, por exemplo. Na sua base ou nas encostas mais pedregosas e íngremes, eram também colocadas as portas do reino dos mortos, como símbolo do retorno ao princípio, como se fosse o ventre da Grande Mãe, do cosmos primevo. Em quase todas as histórias de deuses as montanhas assumem-se como lugares de máxima concentração do divino, de lugar mais próximo da perfeição divina, de comunhão com o sagrado. Ou não fosse o Olimpo a morada dos deuses da Antiga Grécia... a montanha sagrada ergue-se no centro do mundo, representando o eixo e a raiz do mesmo, como a cruz, a escada ou a árvore, numa infinita dimensão simbólica conferida pela cultura e mentalidades de todos os tempos, pela psique e pelo desejo de tocar no sagrado. A circularidade em espiral expressa na conceção figurativa da montanha é também uma representação da vida humana. No topo está a virtude, a beatitude, a paz, no acesso ao cume aparecem as virtudes cardeais, nas faixas concêntricas em torno da montanha, como se fossem curvas de nível em circularidade eterna aparecem os vícios e pecados humanos, os prazeres terrenos, tudo o que desvia a atenção e direção do cume, onde figura a virtude. A representação da montanha na arte é por isso recorrente e com inúmeros exemplos desde sempre, com particular expressão na arte cristã, nomeadamente na pintura a partir do Gótico.
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