Mosteiro de Cete

Embora o Mosteiro de Cete venha referenciado em fontes muito antigas (século IX), não é possível fazer uma ideia de como este seria na sua primeira versão, situado em Vila Douro. Esta casa religiosa beneditina passou a ser conhecida por Mosteiro de Cete, dado serem oriundos da cidade francesa com o mesmo nome os monges que aqui se instalaram. Foi edificado como fortaleza para defesa dos ataques mouros. Em 963, o mosteiro sofreu grandes danos após ataque serraceno. Foi em 967 que o cavaleiro francês Gonçalo Oveques, imbuído do espírito de cruzada, tomou a iniciativa da sua reconstrução, mantendo a arquitetura o seu carácter defensivo. Com a paz trazida pela fundação da Nacionalidade e com os posteriores benefícios régios que foi recebendo, esta comunidade religiosa adquiriu certo peso.
Na estrutura arquitetónica harmonizam-se as formas góticas com elementos estruturais e decorativos da corrente estilística anterior, o românico. Em meados do século XVI, D. João III anexou-o ao real colégio da Graça de Coimbra, iniciado pouco tempo antes. Aquando da extinção das ordens religiosas em 1834, o mosteiro encontrava-se muito degradado e, à exceção do seu templo, foi vendido em hasta pública. No século XX, uma intervenção da D.G.E.M.N. salvou a igreja monástica da ruína.
A fachada da igreja é dominada pelo portal de arquivoltas em ogiva, onde subsiste ainda o gosto românico, devido à sua desproporção volumétrica. As arquivoltas são molduradas por friso de grosso perlado e sustentadas por três pares de colunelos capitelizados e ábacos, ornados por idêntico friso perlado. O portal é sobrepujado por uma pedra de armas, possivelmente dos reconstrutores do mosteiro, as armas dos Oveques e Braganções, seguida de singela rosácea. A empena é coroada por cruz grega de terminações flordelisadas. À esquerda está uma torre ameada e alteada em relação à igreja, com aberturas sineiras muito posteriores, destacando-se na face lisa três gárgulas zoomórficas. O piso térreo da torre apresenta cobertura em abóbada de ogivas, suportada, no exterior, por curioso contraforte, onde se fazem sentir elementos decorativos da gramática manuelina, como as ameias chanfradas, os pináculos em torsão e o friso cordiforme. Na torre e fachada da igreja é ainda de salientar algum sentido de verticalidade, em contraste com o robusto contraforte, com o atarracado portal e a volumetria horizontal do antigo mosteiro, que se desenvolve longitudinal e perpendicularmente ao templo.
Após a intervenção da Direção-Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais (D.G.E.M.N.), já no nosso século, surgiram na fachada norte duas portas - uma gótica, com decoração de cariz vegetalista, e a outra em dois arcos de volta perfeita despida de ornatos, além de duas dependências conventuais - o claustro e a casa do capítulo. Nesta evidencia-se pilar octogonal ao centro, apoio da cobertura, e uma porta entre janelas, que estabelece o acesso ao claustro.
No claustro, caracterizado pelas suas linhas austeras de arcaria de volta perfeita assente em colunas oitavadas, sobressaem duas airosas janelas manuelinas e a porta de acesso à igreja (testemunho de arquitetura mais antiga) com perfis geométricos, pouca decoração e tímpano sustentado por dois largos cachorros.
O interior da igreja, de nave única, apresenta a capela-mor rebaixada, arco triunfal apontado, chanfrado e delimitado por friso perlado e apoiado em colunas com capitéis, preenchidos com ornatos fitomórficos e antropomórficos. Coroa o arco uma rosácea em estrela de seis pontas, o signo-saimão.
A rebaixada cabeceira é formada por um corpo reto e um outro semicircular, apresentando cobertura em abóbada ogival no primeiro, enquanto o segundo é em concha, sobre arcada cega, criando um gracioso fundo ao altar. Podemos apreciar ainda na ousia o túmulo, com estátua jacente, do abade D. Estêvão, responsável por estas obras no século XIV, conforme se pode ler na inscrição que ostenta.
Merecedora de atenção neste templo é também a capela de S. Nicolau Tolentino, situada à esquerda da entrada e já dentro da torre. Apresenta portal emoldurado por duas arquivoltas apontadas, com a externa decorada por friso vegetalista. A capela tem cobertura em abóbada nervada, assente em mísulas hexagonais, onde se pode admirar uma chave de fecho armoriado. É nesta capela que se encontra o admirável túmulo de D. Gonçalo Oveques, inserido num arcossólio manuelino de bom traçado, cuja parte superior se encontra sobre azulejos quinhentistas. A arca tumular é profusamente decorada numa composição de ornatos fitomórficos.
Apesar de todas as vicissitudes por que passou, o cenóbio conserva ainda algumas obras escultóricas, como as imagens de Nossa Senhora da Graça, S. Pedro Apóstolo e Santo Agostinho, e, na capela funerária, uma pia batismal (sem base) do século XVI.
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