Movimentações Hitlerianas na Europa: Sinais de Guerra

O nascimento do Nacional Socialismo resulta das consequências da derrota alemã na Primeira Guerra Mundial. Pelo Tratado de Versalhes, em 1919, a Alemanha fora culpabilizada pela guerra, destituída do seu império colonial e obrigada a pagar avultadas somas de dinheiro em forma de reparações de guerra. Em resultado deste tratado, a vida económica e política do país foi gravemente afetada: a inflação, que aumentara em flecha, atingiu o seu ponto máximo em 1923, o que empobreceu a sociedade alemã e a deixou vulnerável perante os apelos de ideologias extremistas surgidas no pós-guerra.
Poucos anos depois de serem implementadas algumas medidas que possibilitavam alguma estabilidade económica e permitiam à Alemanha caminhar para o progresso, rebentou a crise mundial de 1929 que, entre outros países, arrastou o país para uma severa depressão económica. Nestes anos, a República Democrática, dita de Weimar, instituída depois da guerra, sofreu ataques severos tanto da Esquerda como da Direita, uma vez que se mostrava inoperante face à urgente necessidade de melhorar a situação do país. Com esta conjuntura, é fácil compreender que nas eleições de 1933 a maioria dos eleitores alemães tivesse votado em partidos totalitários comunistas e nacional socialistas.
O Partido Nacional Socialista, fundado a partir do Partido Trabalhista Alemão (D.A.P, ou Deutsch Arbeit Partei), formou-se na cidade de Munique em 1919. Nesse ano, Adolf Hitler juntou-se a esta força política, que veio a liderar mais tarde. Na primeira grande concentração dos Trabalhadores Alemães, reunida a 24 de fevereiro de 1920 em Munique, Hitler leu o programa do Partido, que ele próprio tinha escrito, e que em vinte e cinco pontos focava ideais nacionalistas exacerbados, princípios socialistas deturpados e doutrinas racistas, sobretudo antissemíticas e em prol do arianismo e da "pureza" do povo alemão. Pouco tempo depois desta concentração, o Partido recebeu uma nova identificação: a partir deste momento passou a denominar-se Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP). O partido estava a crescer, a partir da Baviera e, convencido da necessidade de usar a violência para atingir os seus objetivos, organizou as Sturmabteilungen, ou S.A. (em português: Secções de Assalto). Os objetivos das S.A. eram defender as suas reuniões, acabar com os encontros de democratas, socialistas, comunistas e dos sindicatos, isto é, todos os seus adversários políticos e perseguir os judeus, em especial os comerciantes. Nestas operações, as S.A. contavam com o apoio de alguns oficiais afastados do exército, entre os quais se destacava Ernst Röhm, que depois as liderará.
Em 1921, Hitler foi eleito "secretário ilimitado" do Partido, que nesse ano passou a ter como emblema uma bandeira vermelha, que apresenta no centro uma cruz suástica preta dentro de um círculo branco. Logo em 1923, Hitler patrocinou a publicação do órgão oficial do Partido, o periódico "Volkischer Beobachter" ("O Observador Popular").
A propaganda nacional socialista concentrava grande parte dos seus esforços em expor o Bolchevismo, que o partido considerava ser uma sórdida conspiração internacional perpetrada pelos financeiros judaicos, pois via-se confrontado desde 1919 com o crescimento do ativo Partido Comunista Alemão. Contudo, também não deixava de criticar a democracia parlamentar e conspirar para a mudança deste regime para um ditatorial, devido ao fracasso anterior da República de Weimar.
A 8 de novembro de 1923, Hitler, acompanhado por cerca de 600 dos seus homens, marchou sobre uma cervejaria de Munique, onde Gustav von Kahr, o chefe do governo provincial da Baviera, se dirigia à assistência num encontro.
Aqui Hitler fez prisioneiros Gustav von Kahr e os seus apoiantes e, apoiado pelo general Erich Ludendorff, substituiu Kahr por um governo nacional-socialista. Depois de alguns distúrbios com a polícia de Munique no dia seguinte, Hitler e os seus homens puseram-se em fuga, o que significou a derrota da Revolta da Cervejaria (Bier Halle Putsch), a qual resultou na prisão de Hilter e de Ludendorff, bem como a ilegalização do partido nazi.
Durante o cumprimento da sua pena de prisão, de cinco anos, Hitler ditou a sua obra Mein Kampf (em português: "A minha luta") a Rudolf Hess, um texto que segundo o seu autor condensa a doutrina nacional socialista, as técnicas de propaganda e enuncia os planos para conquistar a Alemanha e a Europa.
À saída da prisão alguns meses depois, encontrou o Partido Nacional Socialista praticamente inativo e pouco influente numa altura de recuperação económica em que eram mais bem aceites ideologias moderadas.
Nos anos seguintes, Hitler tratou de reorganizar o partido, e em 1926 auto-nomeou-se Führer, ou seja o líder, organizando os camisas negras também conhecidas por SS (Schutzstaffel ou, em português, Secções de Segurança), uma guarda de elite, criada para controlar o partido e o seu braço militar, as S.A, de Röhm.
A Alemanha, entretanto, mergulhava também na depressão gerada a partir de 1929. O capital estrangeiro deixara de entrar no país, as taxas de desemprego não paravam de aumentar, o comércio externo estava decadente, a indústria não se mostrava muito dinâmica e os preços agrícolas caíam.
Neste panorama pessimista, alguns industriais como Fritz Thyssen (um dos magnatas da indústria do aço), atribuíam avultadas somas de dinheiro ao Partido Nacional Socialista, embora muitos outros estivessem contra este partido.
O movimento nacional socialista foi aumentando com a incorporação de pessoas frustradas, com problemas económicos ou desiludidas com as outras forças políticas. Nas eleições do Reichstag (Parlamento) de 1930, o Partido Nacional Socialista alcançou cerca de 18% do total dos votos, o que lhe permitiu obter 107 lugares no parlamento e ser a segunda força política da nação, a seguir ao Partido Social Democrata (SPD).
Os nazis aproveitaram ao máximo o período de depressão económica, numa altura em que o chanceler Heinrich Bruning tentava salvar a República Democrática sem grande sucesso, facto que favoreceu Hitler. Nas eleições presidenciais de 1932, este obteve uma excelente votação, quase conseguindo destronar o marechal Paul von Hindenburg. Nas eleições do Reichstag de 1932, o seu partido passou a ter 230 assentos num possível número de 670 lugares, batendo os socialistas e os sociais democratas que, juntos numa coligação, não iam para além dos 221 lugares. Hitler recusou fazer uma coligação, e deste modo o Reichstag foi dissolvido, mas por nomeação do ex-chanceler Franz von Papen, Hitler chegou a chanceler a 30 de janeiro de 1933.
No mês de fevereiro, o edifício do parlamento nacional foi consumido pelo fogo (Incêndio do Reichstag), um ato muito provavelmente de origem criminosa que os nazis atribuíram aos comunistas, forjando deste modo um pretexto para acabar com este partido, recorrendo ao uso de meios violentos. O alvo seguinte foi o Partido Social Democrata e a partir daí qualquer outra força política que interferisse no caminho do Partido Nazi para o poder, era igualmente perseguida.
Por um decreto de 23 de março de 1933, os poderes legislativos do Reichstag passaram para o gabinete do chanceler, concedendo assim poderes ditatoriais a Hitler e pondo um ponto final na República de Weimar. Pela lei de 1° de dezembro desse ano, o Partido Nazi passava a estar indissoluvelmente ligado ao Estado.
Isto queria dizer que o Partido era então o instrumento do controlo totalitário do Estado e da sociedade alemãs, controlo esse feito pelos corpos liderantes do partido compostos por nazis de sangue "puro".
A organização que auxiliava diretamente o partido era a S.A., que recolhia os seus fundos da chamada "ajuda de inverno" para os pobres, coletada entre os camponeses e os trabalhadores, conduzia o treino de toda a juventude a partir dos 17 anos de idade, organizava a perseguição dos judeus em 1938 e durante a Segunda Guerra Mundial liderou as forças defensivas do Reich.
Outra organização vital para o partido era a já referida SS, entretanto promovida a serviço de espionagem do governo, que na Segunda Guerra Mundial organizara secções especiais de combate (como as Waffen-SS, com estrangeiros voluntários). Juntamente com a Sicherheitsdienst, ou SD (Serviço de Segurança), as SS controlaram o partido nos últimos anos da guerra.
Outra organização auxiliar do partido era a Hitlerjugend (Juventude Hitleriana), um corpo paramilitar organizado que preparava os rapazes entre os 14 e os 17 anos para virem a incorporar futuramente as SS e S.A. e o partido; havia ainda a Auslandsorganisation, que conduzia a propaganda e dirigia outras organizações e operações no estrangeiro (por exemplo, também em Portugal).
Em 1933, foi criada a Polícia Secreta do Estado, a Gestapo, para suprimir toda a oposição ao nazismo; em 1936 foi incorporada no estado, passando a responder apenas perante Hitler e Heinrich Himmler, um dos mais cruéis colaboradores do Fürher.
De 1933 a 1935, a estrutura do estado germânico foi substituída por um estado centralizado. O problema central deste período era o desemprego; estima-se que haveria entre 6 a 7 milhões de desempregados na Alemanha, entre os quais se contavam muitos membros do Partido Nacional Socialista, que esperavam a implementação das prometidas medidas anti-capitalistas.
A elite do partido exigia uma "segunda revolução" e Hitler via-se na eminência de ter de escolher entre um regime plebeu nacional socialista ou uma aliança com os industriais e o estado maior do Reichswehr (exército do Reich).
Na noite de 30 de junho de 1934, conhecida como "a noite das facas longas", as SS ordenaram o assassinato de membros do S.A., entre os quais se contava Röhm, que poderiam vir a causar problemas ao Reichswehr. Esta purga atingiu também outros inimigos, como alguns monárquicos e o general Kurt von Schleicher.
Mantinha-se, contudo, o problema do desemprego, e era necessário revitalizar a indústria alemã. Para isso, Hitler propôs a "Nova Ordem", um programa ambicioso onde se considerava que para dinamizar a indústria era necessário transformar a Alemanha numa potência comercial, industrial e financeira à escala mundial, readquirir fontes de matéria prima, desenvolver os meios de transportes e reorganizar a indústria de modo a torná-la mais eficiente.
Para realizar este plano, era vital eliminar as restrições económicas e políticas impostas pelo Tratado de Versalhes, facto que se achava poder conduzir à guerra. Portanto, a economia era vista por um prisma de guerra. A Alemanha tornara-se autossuficiente, pois produzia matérias primas através do desenvolvimento de substitutos sintéticos, e tinha uma boa produção agrícola proporcionada pelo desenvolvimento da agricultura.
Além do Tratado de Versalhes, o segundo obstáculo à realização deste plano era a luta dos trabalhadores por melhores condições de vida, que se organizavam em sindicatos com tendências de esquerda contrárias ao nazismo.
A "Nova Ordem" aboliu os sindicatos e as cooperativas, proibiu greves e lock outs e obrigou todos os trabalhadores a tornarem-se membros do Deutsche Arbeitsfront (DAF) (em português: Organização dos Trabalhadores Alemães) o braço laboral do partido nazi. A economia da "Nova Ordem" era controlada por quatro bancos e um número restrito de grandes industriais, como a família Krupp, que fabricava munições e produtos de aço, e a Interssengemeinschaft Farbenidustrie (I.G. Farben) a maior fábrica de corantes químicos alemã, que explorara mão de obra judia em campos de concentração na Polónia.
Este plano acabou com o desemprego e, ao providenciar um razoável nível de vida para os trabalhadores, permitiu o enriquecimento das elites. Por outro lado, deu à Alemanha a possibilidade de produzir material de guerra e desse modo torná-la mais pujante militarmente.
A ação agressiva do totalitarismo levou à remilitarização da Renâmia (ou Rheinland) em 1936 - a zona do Reno, uma das mais estratégicas da Alemanha, encontrava-se obrigatoriamente desmilitarizada desde o Tratado de Versalhes -, à formação do Eixo Fascista italo-germano ainda nesse ano, à intervenção alemã na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) ao lado do general Franco, à anexação da Áustria em 1938 (o célebre Auschluss), à destruição do estado da Checoslováquia em 1939 (invasão da província dos Sudetas, maioritariamente povoada por alemães) e à negociação de um pacto de não agressão com a União Soviética (pacto Ribentropp-Molotov), que integrava a divisão da Polónia, o qual conduziu à invasão deste país a 1 de setembro de 1939, o que por sua vez precipitou a Segunda Guerra Mundial.

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