Movimento Perpétuo

Do ponto de vista formal, as composições reunidas em Movimento Perpétuo recorrem frequentemente a processos de acumulação por enumeração (caso de "Pedra Filosofal" ou de "Moinho sem Velas"), ao paralelismo anafórico, à rima interna, a ecos internos ("Cai a tarde, dentro e fora./ E agora, ao cair da tarde,/ frio, caminho, por fora,/ face estranha à tarde que arde/ na hora que cai agora."("Crepúsculo"), lançando mão de um conjunto de dispositivos retóricos que, se por um lado conferem uma grande musicalidade às composições, remetem, na análise que F. J. B. Martinho lhes consagra em Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa Contemporânea (Lisboa, Colibri, 1996, pp. 428-433), para uma tendência barroquizante, já anteriormente assinalada por Jorge de Sena. Norteada por um programa humanista onde "avultam os valores do pluralismo e da tolerância" (id. ib., p. 429), o título do volume realiza-se a nível temático, ao longo da coletânea, por referência à fugacidade do tempo e à mudança ("Neste abrir e fechar de olhos/ já todo o mundo é diferente"), enquanto elementos agudizadores de uma perpétua dor existencial: "Isto, e isso, e aquilo, não é isso, não é aquilo nem isto./ Não é nada./ Ou talvez não seja nada./ ou talvez seja só isto:/ um pavor de madrugada,/ um mal que se chama existo." Nesta medida, António Gedeão faz eco de inquietações que dominaram outros poetas da época de 50, vivendo, em "Carne viva", a angústia do Homem do pós-guerra, desprovido de pautas axiológicas para toda a ação humana, condenado a continuar tiritando ao longo de uma vida "longa e fria", compreendendo que "tudo termina em cansaços,/ terras/ e braços/ e eu."
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