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Música Clássica Portuguesa (séc. XVIII)
A Época Clássica da música erudita ocidental ocorreu entre a segunda metade do século XVIII e o início do século XIX, caracterizando-se pelo equilíbrio, simetria e claridade, imbuído da razão e da ideia de experiência e conhecimento, coincidindo com a época que decorre entre o Barroco e o Romantismo, na parte final da Época das Luzes, ou Iluminismo. Também o requinte, o brilho e a magnificência marcam a música desta época, embora com um registo de simplicidade expressiva e estrutural em termos de composição e expressão.
Portugal não fugiu à corrente dominadora do classicismo na cena musical europeia da segunda metade do século XVIII, apesar da posição periférica e de não existir uma forte e socialmente impregnada educação e atividade musicais. Foi a partir do casamento do rei D. João V com a princesa austríaca D. Maria Ana que a música em Portugal ganhou um novo alento. Começava o chamado período "italiano", marcado pela preponderância e influência da ópera italiana e das suas formas dramáticas de carácter acentuadamente profano. Alguns músicos portugueses demandaram mesmo a Itália para desenvolverem estudos de música, a expensas de D. João V, principalmente depois de 1717. António de Almeida e António Teixeira são os dois músicos mais famosos dessa leva de músicos italianizados de Setecentos em Portugal. Além de composições de carácter profano, próprias da sua formação, compuseram também peças de cunho religioso, o que se entendia na espiritualidade barroca da época. Teixeira foi mais sacro que Almeida. António Teixeira é considerado o primeiro compositor dramático português e o grande nome da música do seu tempo, compositor de pelo menos sete óperas conhecidas nos nossos dias. As Guerras de Alecrim e Manjerona ou As Variedades de Proteu são dois importantes títulos da sua veia criadora, datados de 1737 e eivadas de italianismo mas com forte marca portuguesa.
Depois vem o grande nome que é (José António) Carlos (de) Seixas (1704 – 1742), o maior nome do órgão e cravo de então, compositor fecundo de tocatas e sonatas para ambos aqueles instrumentos, bem como um concerto para cravo e orquestra de arcos e muitas composições de carácter religioso.
Entre 1721 e 1729 é de recordar a presença em Portugal, na corte de D. João V, de um dos maiores nomes da música daquele tempo, Domenico Scarlatti, ativo no nosso País naquele período, na área do cravo, essencialmente. Depois deste compositor de sonatas vieram, a partir de 1732, vários cantores italianos, ativos até 1755, data do Terramoto de Lisboa, que destruiu a Ópera do Tejo ou do Paço da Ribeira, um dos centros mais importantes da música portuguesa do século XVIII. Inúmeras óperas cantadas em português, além de italiano, animaram os serões de Lisboa, onde chegaram a existir cinco óperas ativas, como a do Bairro Alto, onde se estreou Luísa Todi, grande cantora lírica portuguesa. Outros nomes da música em Portugal em Oitocentos, ainda antes do movimento clássico, foram Manuel dos Santos (? – 1737), Fr. Francisco de S. Jerónimo e João Rodrigues Esteves (ativo pelo menos até meados de Setecentos).
O género religioso e dramático dominou a cena musical portuguesa na segunda metade do século XVIII, com um sem número de compositores, muitos ainda desconhecidos ou menos renomados, ainda por estudar. Marcos Portugal, João de Sousa Carvalho, António Leal Moreira ou João Pedro de Almeida Motta são alguns dos que mereceram já alguns estudos ou a execução das suas obras, atestando uma produção musical muito vasta, mas de forte pendor italianizante. A Biblioteca do Paço Ducal de Vila Viçosa é um dos acervos documentais desta copiosa produção de música em Portugal ao longo do século XVIII, a qual revela apurada qualidade. A Paixão de Almeida Motta assim o confirma, fazendo dele, ainda que desconhecido do grande público, um dos maiores compositores da segunda metade de Setecentos.
A música nesta segunda metade do século XVIII estava muito ligada à Igreja em Portugal, administrada pelas instituições de formação religiosa, como o Seminário da Patriarcal de Lisboa, onde pontificou, como professor e formador o músico e compositor João de Sousa Carvalho, já referido. De entre os seus discípulos, nem todos de carreira religiosa, refira-se, figurou o mais célebre músico da transição de Setecentos para Oitocentos em Portugal, o pianista João Domingos Bontempo (1771- 1842), fundador da primeira Academia Filarmónica de Concertos em Portugal, depois de ter trabalhado e estudado em Paris e Londres, contrariando um pouco o italianismo musical português. Os grandes compositores internacionais de música sinfónica ou de câmara foram assim revelados aos Portugueses, que passaram a conhecer nomes como Haydn ou Mozart, além de Boccherini e, já com registo mais do Romantismo, Beethoven. Bontempo foi o primeiro diretor do Conservatório de Música de Lisboa, fundado em 1835, para substituir o domínio da formação musical em Portugal por parte da Igreja, através, por exemplo, do já referido Seminário da Sé Patriarcal de Lisboa. Estava-se já depois da exclaustração de 1834 e do fim do monopólio do ensino em Portugal por parte da Igreja, que a ideologia liberal vencedora tanto combatera. Depois de Bontempo, ou com ele mesmo, a música clássica em Portugal cedia à música do Romantismo, mais fulgurante, magistral, nacionalista, menos italianizada, ao contrário do classicismo português.
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