nau

Data do reinado de D. Dinis (1279-1325) a primeira denominação corrente (não esporádica) de nau na documentação portuguesa. Em vários documentos históricos a nau surge com a denominação de nave (do latim, navis), termo utilizado quase sempre entre 1211 e 1428. Concretamente, na Baixa Idade Média (séculos XIII-XV, primeira metade deste) as naus, ainda tecnicamente longe daquilo que seriam nos Descobrimentos, serviam essencialmente para transportar mercadorias que provinham de portos italianos e da Flandres, do Norte da Europa para o Mediterrâneo e vice-versa. Os primeiros estrangeiros a tomarem contacto com naus lusas foram os ingleses na primeira expedição portuguesa contra Eduardo I da Inglaterra em 1295. As primeiras menções em Portugal do termo nave, em referência a nau, remontam ao foral de Vila Nova de Gaia, de 1255, e a uma inquirição de 1258 sobre a vila de Mindelo, no julgado da Maia, seguidas depois das usuais referências em cartas, em 1282, entre D. Dinis e o Bispo do Porto sobre taxas à navegação no rio Douro. O termo nau, propriamente dito, só se usou de forma corrente depois de 1297, quando surge assim escrito em documentos oficiais. No século XV os cronistas já só usam este termo, recolhido da linguagem popular dos homens do mar e depois assimilado na língua portuguesa. De referir que a nau não foi o tipo de embarcação usado na exploração da costa africana no século XV nem nas viagens de exploração atlântica desse século, dado o seu tipo de velame, que só podia receber vento de popa. A rota da Índia e o Brasil deram-lhe a primazia nos mares "portugueses", dada a sua capacidade de transporte, de acolhimento de tripulação e de poder de fogo.
A nau é, acima de tudo, um navio de grandes dimensões. A nau mais primitiva tinha um mastro e uma verga com pano redondo e tombadilha tal como outras embarcações, mas com dimensões superiores. No tempo de D. Fernando as naus desenvolveram-se em termos náuticos e multiplicaram-se de forma assinalável em Portugal. Devido à pirataria que assolava a costa portuguesa e ao esforço nacional de criação de uma armada para a combater, as naus passaram a ser utilizadas também na marinha de guerra. Nesta altura, foram introduzidas as bocas de fogo, que levaram à classificação das naus segundo o poder de artilharia: naus de três pontas (100 a 120 bocas) e naus de duas pontas e meia (80 bocas). A capacidade de transporte da nau aumentou também, chegando às 200 toneladas até ao século XV, e, na centúria seguinte, a sua tonelagem atingiria as 500 t. As classificações e as denominações não eram dadas só consoante o número de bocas, mas também de acordo com as suas funções: nau-de-espia, que fazia o reconhecimento dos movimentos da armada inimiga; nau de Estado, normalmente usada pelos representantes do Estado; nau-almirante, navio onde seguia o comandante ou chefe da armada; nau-de-carga, usada para transportar mercadorias, provisões e como apoio para embarcações maiores; nau-de-espécie, que se destinava a observar as forças inimigas. No tempo de D. João I a introdução da artilharia ganhou ainda um maior relevo. No reinado de D. Afonso V, no apogeu da caravela ao serviço da Expansão portuguesa, as naus conheceram inúmeros aperfeiçoamentos e o seu número cresceu tanto que passaram a constituir as principais unidades da armada. O uso da nau de conceção medieval começou a ser posta em causa tecnicamente no reinado de D. João II, quando eram necessárias as investidas para montante em rios africanos ou estuários de menores dimensões. Devido a estas exigências, as caravelas reuniam os requisitos para uma melhor navegação nos rios e costa africana.
Todavia, a evolução da nau como grande navio de alto-mar e ícone dos Descobrimentos portugueses estava prestes a surgir. De facto, com D. Manuel e a criação do Império Índico, com as viagens de longo curso e os riscos a elas associados, a nau foi alvo de um grande apetrechamento técnico, aumento de capacidade, de poder de fogo e do número de efetivos.
À medida que a capacidade da nau aumentava, a guinda dos mastros aumentava também, o que levaria ao aparecimento dos primeiros mastaréus que prolongavam os mastros. As vergas também se foram multiplicando, criando nas naus uma complexidade de cordames, mastros e mastaréus. Ao longo da Idade Média as naus não passaram, geralmente, de duas cobertas e a sua capacidade, como se viu, só depois do século XIV é que excedeu as 100 toneladas. O aparelho era tradicionalmente redondo nos mastros com mezena triangular; no século XVI o pano redondo já surge também nos mastros da ré. A introdução mais acidental foi precisamente a colocação de um mastro na contra mezena, cuja vela vinha caçar no botaló. Foi no século XIX, com a Revolução Industrial e os navios a vapor, que esta espécie de embarcação desapareceu, dando lugar aos navios modernos.
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