O Barão

Obra de Branquinho da Fonseca, publicada em 1942, que manifesta, segundo David Mourão-Ferreira (cf. posfácio a O Barão, Lisboa, 1969), uma "perfeita correspondência entre o assunto, o estilo e o ponto de vista", numa técnica narrativa quase transparente e que se resume a um "estilo que não pretendia autocraticamente impor-se como estilo, para a segurança de uma técnica que não procurava de modo ostensivo exibir-se como técnica". A intriga reduz-se a traços simples: o narrador, em visita de serviço a uma aldeola, é convidado pelo Barão, "um senhor medieval, sobrevivendo à sua época, completamente inadaptado, como um animal de outro clima", a pernoitar nos seus domínios. Depois do jantar, o narrador é aliciado a perder-se "pelos caminhos sombrios do [...] sonho e da [...] loucura", a "cantar às estrelas", a dar a vida para depor um "botão de rosa lá na alta janela da [...] Bela-Adormecida". Durante essa noite, a oscilação entre o real e o fantástico é favorecida pela perspetiva de um narrador homodiegético que permite a apreensão de um mundo onde o insólito não é percebido como insólito. Típico "expoente de uma sociedade fechada, de um statu quo medieval que ainda hoje absurdamente persiste" (tese de Pinheiro Torres, citado por David Mourão-Ferreira, in posfácio a O Barão, Lisboa, 1969), o Barão é, segundo David Mourão-Ferreira, antes de tudo, "um ser que nos perturba, e revolta, e comove, com os seus defeitos e as suas qualidades, as suas obsessões, os seus sonhos, a sua índole pessoal e intransmissível... Daí, a incomparável espessura que ele tem como criação romanesca." (id., ib.).
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