O Decepado
A morte de Henrique IV, rei de Castela e Leão, provocou em D. Afonso V, rei de Portugal, à época já viúvo, a pretensão de aceder ao trono do país vizinho, através do casamento com a princesa castelhana D. Joana. A 30 de abril de 1475, realizou-se o casamento que foi considerado sem valor, visto que não havia dispensa papal.
Entretanto, surgiu uma forte oposição de Isabel, a Católica (irmã de Henrique IV) e do seu marido, Fernando de Aragão, que tinham a ambição de unificar a Espanha. O herdeiro do trono português, D João II, também não estava de acordo com as pretensões do pai, achando que aquelas batalhas levariam a uma guerra inevitável e dispendiosa entre os dois países.
Portugal estava já empenhado numa guerra com o Norte de África e na prossecução dos dispendiosos Descobrimentos. Mas o teimoso e ambicioso D. Afonso V não desistiu da sua ideia e, ajudado por nobres castelhanos, invadiu o país vizinho. Embora contrariado, o futuro D. João II ajudou o seu pai nessa guerra, sendo da sua responsabilidade muitas das vitórias.
A 1 de março de 1476, numa das batalhas, às portas da cidade de Toro, o exército português desorientou-se, deixando o porta-estandarte Duarte de Almeida sozinho e rodeado de inimigos. A posse do estandarte em mãos inimigas significaria, por si só, a derrota, como era costume nesses tempos. Duarte de Almeida defendeu-se com valentia, empunhando o estandarte numa das mãos e a espada, com que repelia os atacantes, na outra. Quando a mão que segurava a espada lhe foi cortada pelo inimigo, Duarte de Almeida lutou com o cabo da bandeira até que lhe cortaram a outra mão.
Com o estandarte entre os dentes, continuou a defender-se com os braços até cair sem forças. Temporariamente arrebatada pelos castelhanos, a bandeira foi recuperada finalmente pelo escudeiro Gonçalo Pires. Duarte de Almeida, feito prisioneiro dos castelhanos, foi levado para um hospital em Zamora. O respeito e admiração pelo seu ato de coragem foram tão grandes que os próprios reis Católicos mandaram colocar as suas armas na capela real da Catedral de Toledo, e em Portugal, foi considerado um herói nacional. O "Decepado", como veio a ser conhecido, morreu pobre e esquecido, apesar do seu gesto de valentia.
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