O Leopardo

Palma de Ouro no Festival de Cannes, este filme foi realizado por Luchino Visconti, em 1963, com base no romance homónimo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, publicado em 1958. O filme retrata a Sicília de 1860 e uma aristocracia secular centrada na figura do Príncipe Don Fabrizio Salina (Burt Lancaster), que assiste à diminuição do seu poder e à sua corrupção moral. Dececionado com a fraqueza do seu filho mais velho, Francesco (Pierre Clémenti), Don Fabrizio transfere toda a sua afeição filial para o seu sobrinho Tancredi (Alain Delon). Face ao desembarque das forças de Garibaldi em Palermo e à iminente unificação da Itália, Salina fica chocado quando vê o seu sobrinho associar-se a Garibaldi. Para salvaguardar a sua família, o velho nobre patrocina o casamento do seu sobrinho com Angelica Sedara (Claudia Cardinale), filha de Calogero Sedara (Paolo Stoppa), um rico burguês que ele despreza, mas gradualmente Salina torna-se consciente do inevitável fim de uma era. Visconti retratou com brilhantismo o período histórico do nacionalismo italiano, colocando em confronto a nostalgia da perda dos privilégios e tradições com a necessidade de transformações sociais. Os produtores consideraram Michelangelo Antonioni, Vittorio de Sica e Federico Fellini para a direção, mas o projeto acabou por parar nas mãos de Visconti, que exigiu que o filme não fosse rodado a preto e branco. O Leopardo tornou-se num dos principais títulos do neorrealismo italiano concebendo uma complexa teia dramática, centrada na figura do protagonista, ele próprio dilacerado interiormente por questões de natureza moral. Burt Lancaster não foi a primeira escolha para o papel pois Visconti preferia Anthony Quinn que, na altura, declinou o convite, visto estar a trabalhar em The Visit (1963). Contudo, Lancaster assinou uma magistral interpretação emprestando-lhe a faceta de um homem amadurecido pelo tempo, duro e astuto, que mantém uma heroica crença no princípio aristocrático de hereditariedade apesar de, paradoxalmente, não confiar na sua família próxima. A célebre cena do banquete, que imortalizaria o filme, patenteia também o medo de Salina em relação à morte quando, após o baile, Salina sai para a rua e ajoelha-se perante um cortejo fúnebre, resignado e ciente do seu inevitável destino: "se queremos que tudo continue como está, é preciso mudar tudo", acima de tudo, a frase que resume todo um processo histórico e a ação do próprio filme que viria a ser um sucesso à escala mundial e unanimemente considerado como um dos títulos maiores da filmografia de Visconti.
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